O Drone

Por: José Borges da Silva

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Brr...Brr...Brr.. Brr. O pequeno aparelho sobrevoou brevemente o jardim do condomínio, onde avô e neto conversavam, e rumou para a muralha do entorno. Apenas o menino ouvira o farfalhar das pequenas hélices. O avô notou o equipamento apenas pelos movimentos da criança, que o seguiu por alguns segundos com o olhar atento.
 
- Vô, quem voa mais alto, um drone ou um urubu?
 
- O urubu, claro, meu filho.
 
- Por quê?
 
- Bom, o drone voa até onde o sinal do controle alcança. O urubu voa até onde ele quer.
 
Não satisfeito o menino insistiu, encantado com o novo equipamento de vigilância do condomínio.
 
- Mas, vô, se a gente quiser o drone pode voar mais alto, não pode?
 
- É, pode. Na verdade, já voaram por todos os cantos da Terra, em missão de guerra. Mas eles são limitados, filho. Eles são controlados...
 
A criança ficou quieta por um instante. Olhou para a simpática máquina voadora que passava piscando luzes verdes e vermelhas, num voo silencioso e tranquilo. E voltou ao assunto:
 
-Vô, eu gosto mais do drone. Ele não deixa entrar ladrões no condomínio. O urubu é fedorento. O meu pai falou que ele come animais...
 
- Ele ajuda a limpar o meio ambiente de animais em decomposição. O urubu é um ser vivo, filho, ele tem vida própria, é um ser belíssimo. Um ser vivo é outra coisa...
 
- Vô, o que é um ser vivo?
 
- Ora, são os seres que não dependem de nós... São os animais, as plantas, por exemplo. Eles não dependem de nós, os homens. Eles nascem, andam sozinhos... Eles comem sozinhos, criam filhotes, e morrem... O drone é uma máquina. Ele não faz nada disso. Ele depende do controle humano, ele foi feito por humanos. Ele age como os humanos...
 
- Vovô, o drone não morre?
 
- Não, filho. Acho que não. Ele poderá ser consertado, sempre.
 
O menino fez uma longa pausa, pensativo, com ar mais alegre. Depois, mais uma vez voltou ao assunto:
 
- Mas, vô, o drone não pode ter filhotes? O meu pai falou que um dia ele ainda vai ter vida, como os urubus...
 
- É possível, filho, é possível...
 
- Vai demorar muito, vô?
 
Não, filho.  Acho que não! Vamos pra dentro. Está ficando frio aqui fora... Outro dia falaremos mais da vida, de drones, de robôs...
 
Tomando o neto pela mão o homem se dirigiu para casa. Olhando para trás, mais uma vez o menino viu o drone passar, vívido, piscando suas luzes coloridas, até desaparecer em uma imensa nuvem de fuligem e gases que começava a baixar sobre a cidade. O Sol acabara de se pôr atrás dos arranha-céus distantes.
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras

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