Normalidade delirante

Por: Breno Carrijo

À Edna Bastianini
 
Segurei o copo. Bebi daquela mistura sem vontade, já sentia o engodo que viria a seguir. Aquela mesma fita cassete enfiada num rádio velho atrás de mim, feito um cão rouco que late sem motivo. Igualzinho a um, esse som. É uma mania nada esfuziante. De sempre ouvir a mesma coisa. O tempo todo. Já não se fazem músicas como antigamente. Motivos fazem com que pouco a pouco o tédio que conheci na vida adulta se aposse de mim e eu sinto contrações. Duas dessas, duas vezes. Uma em cada um dos meus dedos anelares. Com a cabeça pra trás eu estava deitada. Um calor infernal. No ar estava instalado o mesmo pragmatismo de uma batedeira que gira gira gira. Imaginei: são apenas dois homens de branco: os dedos das minhas mãos. O dedo dos anéis, dedos das amarras. Do representativismo amoroso, algo detestável. Ao pensar nessas coisas todas o tédio me derrotava. Esforcei-me mais um pouco, aquilo parecia ser a salvação: são dois homens com um só chapéu. Um chapéu pesado que faz doer as mãos quando já se cansou de usá-lo no topo da cabeça. Continuei nessa pequena loucura. Mas não era isso, ainda não era. Eu me distraía, apenas. Quando não escrevo, distraio-me assim; divago. E sinto que agora chove, mas não chove. Que é a chuva que cai. Tudo tão poeticamente comum. Não há nada de novo no mundo pós-moderno, tudo sempre muito normal e amanhecido, feito rosca de promoção. E por falar em promoção, onde? Os homens/dedos se sentem assim também, amanhecidos e feios feitos roscas de promoções. Austeros. Diga-lhes, dedos amigos, que o que me irrita é essa matemática! Esse estranhamento. O semblante com o qual o leitor olha para o papel. O incomum às vezes ofende. Incomoda sempre. Me irrita isso tudo anterior a esse texto. Essa matemática detestável, esse delírio de calcular. Calcular a vida, a rima. Os poemas. Arte sem cálculo também é arte. Não vês? Como tudo se mistura? Como tudo se desestrutura. Calcular as palavras para se escrever um texto num suplemento qualquer de um jornal qualquer: pura aritmética. Sempre necessária certa lógica. E o texto impuro se faz. Esqueça; faz assim: jogam-se as palavras como lhes vêm à cabeça e o texto está pronto: e único. Puramente sem esforço ele se constrói. Deliberadamente sem se pensar sobre. Te dizer que escrevi cartas em Budapeste. Todos aqueles cartões postais que você viu. Modificava sempre a estrutura da escrita convencional. Desrespeitando o português formal. Interrompendo frases. Só agora me lembro que preciso terminar o romance que não saiu da primeira parte. A sina do escritor em seu ofício constante – deve de ser sempre assim (?) – de sempre lidar com palavras e nunca se encontrar no meio delas, mas ter o prazer de se perder ainda mais. Como dizer: âmago e âmbito e plêiade. Não há nada mais pleno que o som de cada uma delas. A tônica. Uns acentos. Na sílaba certa. E até mesmo, silêncio:
 
 
Breno Carrijo, estudante de Direito

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