Tempo de lua e de cuia

Por: Luiz Cruz de Oliveira

A calvície e a feiúra e as lentes grossas dos óculos aumentam-me a crença nos esclarecimentos do velho cientista. Ele assegura aos telespectadores que, de fato ocorre algo excepcional: a Lua está catorze vezes mais próxima da Terra. Assim, durante a semana, diante dos olhos humanos, ela está catorze vezes maior.
 
Madrugada alta, holofote potente esparrama sua luz lactecente no meu quarto de esquecida janela aberta. Levanto-me, reencontro a lua cheia.
 
Para mim ela não cresceu, não envelheceu.
 
É-me a mesma que guardei no coração de menino – retrato em preto e branco de quando a mãe, apetrechada de cuia e tesoura, cortava o cabelo do filho, das filhas.
 
- A lua cheia faz o cabelo aumentar, ficar forte.
 
Deito-me novamente, deixando janela e olhos arregalados. Passo a mão saudosa pelos cabelos, brancos como a luz ambiente. 
 
- Eles continuam muitos, continuam fortes.
 
Menos fortes, que a saudade.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 
 

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