Língua Portuguesa, brasileira

Por: Maria Luiza Salomão

Eu, que nasceu em cidadezinha rural, a qual cresceu pouco, viveu em Franca e aqui cresceu, e a chama de “minha” cidade, viajou mundo para aprender mais, não saberia dizer quanto, daquilo que é “ser brasileira”, morou em cidade cosmopolita, em outra nem tanto, fez faculdades, facultativamente se tornou psicóloga, fez filosofia porque se considera, em parte, filósofa, e, depois de muitas voltas e aprendizagens, em círculos cada vez mais precisos redondos marcados, se tornou psicanalista, e agora procurou e procura, nos primórdios de sua vida, o gosto pela língua, que não é só a “sua” língua, que é de uma felicidade melódica: eu, aquela-eu, que fala uma língua reconhecível pelas pessoas que a amam, mas também não diria odeiam talvez eufemisticamente não se simpatizam, outras que lhes são indiferentes, e que, mesmo falando a mesma língua do “dela-mim-eu”, portuguesa-brasileira, não lhe ou não as entendem, mesmo que ela-mim-eu repitam, mesmo que ela-eu insistam, mesmo que ela-eu queiram ser claras, precisas e redondas na expressão da sua-minha diferença, falando português-brasileiro, pois que ela-eu não querem agredir ninguém; (respiro), ela-eu somos diferentes, mas não adianta falar se quem escuta não quer ouvir, melhor usar a linguagem universal, o silêncio, que será ambíguo, ubíquo, para o que ouve apenas a própria voz e a sua-dele cultura, que só aprecia e convive com o que lhe é espelho, e do qual não quer desgrudar, pois se sentirá sem existência; (respiro) ela-eu existem, apesar da sua não-escuta, da sua não-leitura, da sua não-apreciação, do seu desgosto pelo jeito que somos, mexemos, pensamos, ela-eu, que tentamos passar ao largo, para não te incomodar, afinal, o mundo é grande e ninguém precisa tropeçar nela-mim, já que ela-eu evitam trombadas: há o sol que brilha, ele é aproveitável por todos, quem não está ao sol olha pela janela, ou não olha, e o sol não deixa de existir porque você quer chuva nuvens lua pôr-do-sol, quem sabe aurora salvadora: ela-eu existem: o sol, a lua, o cachorro existem, os sentimentos existem, não inventamos nada: a língua que ela-eu falamos, as credenciais da existência dela-minha: a cidade natal, pais, família de origem; (respiro) mas escolhidos foram os caminhos tortuosos da dela-minha história desde então; (respiro) ela-euzinha de mattos salomão, sabe que vós sois maior do que ela-mim-eu, mas o computador corre a pôr em maiúsculas os nossos sobrenomes: tudo, contudo, é convenção, e, no meu coração, corrijo, não pela moda lançada por escritores, mas porque o mundo é mesmo assim, grande na abstração e pequeno na concretude do ser; (respiro) vós, bichos minerais plantas águas céus fogos ventos universo ínfímo e extenso nos nomes que criamos sois merecedores de maiúsculas na vossa concretude irrestrita; (expiro final) bom dizer e escrever, maneiras de deitar raízes do dele-teu-vosso-meu-comigo existentes, todas são vidas em terceira, primeira e segunda pessoas, no singular e no plural, ordenado e virgulado graças à bendita língua portuguesa-brasileira.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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