Bens de raiz

Por: Eny Miranda

Buscavam apenas algum frescor, na despedida do dia, quando saíram de carro para uma volta pelas redondezas. Porque, neste quente e seco início de primavera - como quentes e secos passaram a ser aqui, aliás, os inícios de primavera -, o que de pétalas e cores poderiam esperar? Contudo, cada estação tem seus mistérios. Descobrimos isso todos os anos (e todos os anos voltamos à incredulidade, se alguma coisa nos parece “diferente” do que a idealizamos). Neste, mal o inverno começa a encerrar sua visita, não obstante a secura e o calor precoces e intensos sugarem do ar certezas e esperanças, o ventre da terra reúne novos artistas e inicia um frenético trabalho com tintas, seivas, odores, texturas... Bem disse o marido, ao convidar a mulher para o pequeno passeio: “Em minhas idas diárias ao trabalho, tenho visto coisas lindas nos sítios afastados da cidade.” Mas não foi preciso sair dos limites francanos para que ela entendesse o que ele quis dizer.
 
A primeira a ser avistada, ainda de longe, foi uma árvore esguia, tronco nu, copa alta, ampla, amarela, como um imenso guarda-chuva aberto ao sol, pronto a amparar, na noite que se punha a caminho, uma boa chuva - quem sabe, de água (tão esperada); quem sabe, de estrelas: o guapuruvu (não por acaso, também conhecido como umbela). Sua silhueta majestosa pode ser admirada de vários pontos da cidade. Seus galhos, absolutamente enflorados, desafiam a descrença dos que deixam a alma ressecar sob ventos de baixa umidade e temperaturas mais elevadas do que a habitual. Depois, em várias ruas, pétalas flutuantes de outras cores se exibiam, mágicas, dançando ao vento, ao sem-vento, ao calor, à seca deste ardente umbral de primavera. Com elas, algumas borboletas e joaninhas também se arriscavam a desafiar o clima e desfilar sua seda recamada ou seus pois vermelhos, coral, caramelo... E pássaros (que são como os arco-íris: enquanto existirem, haverá aliança entre Deus e os homens), riscando no espaço rotas audíveis e visíveis, e equilibrando, nos galhos e nos fios, vida em cor, leveza e movimento: rolinhas, bem-te-vis, pardais, maritacas... 
 
Nesta época do ano (como em muitas outras), Franca se faz colorida como um bazar indiano: pingentes, bolas, tufos, veludos, organzas, cetins, musselinas... abrem olhos e bordam notas de águas nascentes em caminhos esbraseantes e horizontes enfumaçados - obra do imponderável - perfurando a terra seca, ornando e aromando o ar. São os amarelos do guapuruvu, os roxinhos do jacarandá-mimoso, os muitos róseos das cássias, o branco dos ipês, todos simplesmente belos, em sua puríssima arte disposta nos galhos e exibida nas ruas; ou imponentemente belos, quando a arte se expõe ataviada de botânicas denominações: Schyzolobium parahyba, Jacaranda cuspidifolia, Cassia brasiliana, Tabebuia roseo-alba... 
 
Nossa primavera é diferente, se comparada a muitas primaveras do Hemisfério Norte, mas é igualmente multicor, sonora, encantadora - com chuva ou sem chuva, com calor ou sem calor, em clima serrano ou desértico. A verdade é que, de qualquer modo, habemus flores.
 
Ah, segundo me informa o Fernando, primo que me assessorou nos nomes científicos aqui listados, as emblemáticas sibipirunas (Caesalpinia peltophoroides) também já devem estar florescendo, acenando com a esperança de um refrigério genuinamente verde-e-amarelo, neste tempo de abrasada seca.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 

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