Salada mista

Por: Everton de Paula

Tempo de escola
 
Não consigo me lembrar, com precisão, das lições que recebia quando cursava a antiga escola primária. Mas os casos ocorridos são tantos e tão pitorescos que dá gosto narrá-los.
 
Eu não era, nem de longe, o que se possa chamar de garoto comportado, quietinho, obediente, sisudo. As cicatrizes que trago na testa, braços e pernas testemunham ter sido eu uma criaturazinha travessa, rebelde, daquelas que costumam levar a mãe a um estado misto de carinho e desespero. Assim sendo, imagino a paz que minha mãe vivia quando eu estava na escola, durante uma tarde inteira.
 
Lembro-me de, certa vez, a professora ter perguntado, circunspecta, a cada um dos alunos de minha classe se morava perto ou longe da escola, e  quanto tempo demorava a chegar a sua casa.
 
Nunca me esquecerei do sorriso de dona Beny, a professora do 2º ano primário, quando eu respondi:
 
- Acho que moro muito, muito perto da escola, porque quando chego em casa minha mãe sempre diz: “Santo Deus, você já voltou?”
 
 
Segredos, mulheres e primogênitos
 
É um mito a ideia de que os homens podem guardar segredos e as mulheres não.
 
Sempre entendi que a capacidade de guardar segredo nada tinha a ver com o sexo, mas sim com o caráter do indivíduo. Esta minha convicção foi abalada por outra informação que obtive, lendo as conclusões de alguns psicólogos: guardar segredo está relacionado com a ordem de nascimento.
 
Segundo dados e pesquisas, demonstrou-se que o filho primogênito é mais capaz de guardar segredos. Os filhos seguintes, sobretudo os caçulas, adquirem o hábito de correr para os mais velhos com qualquer notícia mais ou menos importante; é uma inclinação, um hábito que raramente perdem quando se tornam adultos.
 
Matutei sobre o assunto. Fui o último a nascer de minha mãe. Sou o filho caçula. Será que ando tagarelando muito e ninguém me avisou de nada?
 
 
No cinema do shopping
 
Já faz um tempo. Vimos o cartaz da sessão vespertina, num dos cinemas do shopping. Resolvemos seguir a indicação de nossas filhas e entramos.
 
Fiquei espantado com o número de espectadores que devoravam pipocas, balas, chocolates, sorvetes, sugando com avidez estonteante coca-cola ou outra coisa líquida que estivesse em seus imensos copos plásticos. O barulho era irritante, misturando-se a conversas em alta voz e arrotos nada sutis.
 
O filme começou. À medida que o suspense ia tomando conta da plateia, os ruídos indesejáveis foram diminuindo. Reinava silêncio num determinado momento. Apenas uma mulher, sentada atrás de nos, ofegante, com a bolsa cheia de compras, com aqueles sacos plásticos das lojas, e bem na hora em que a fita ia chegando a uma parte interessantíssima, insistia em fazer barulho. A mulher ofegante esquecera completamente a tela para escarafunchar as sacolas, como a verificar se todas as compras feitas estavam mesmo ali, o que provocou um insuportável e interminável barulho.
 
Foi tirando todas as compras, uma por uma, desembrulhando as sacolas plásticas para examinar o conteúdo. O barulho que o plástico fazia obrigava todos os espectadores mais próximos a um grande esforço para ouvir o diálogo do filme e prestar atenção à cena.
 
Essa busca farfalhante e irritante se prolongou até que minha esposa virou-se para trás e perguntou, fuzilando de raiva:
 
- O que é que a senhora está fazendo aí atrás? Um ninho?
 
 
Espanto
 
E então a princesa magricela e feia casou-se com o príncipe sardento, corcunda, narigudo e viveram, felizes para sempre...
 
Ora, tem algo errado neste início de história, não é mesmo? Isto não é o que dizem os contos de fadas, mas sim o que diz a própria vida, em sua face cruel de realidade. 
 
As pessoas realmente belas, depois de certa idade, deixam a desejar aqui e ali.
 
Eu me apercebi disso, num supermercado. Havia algo de vulgar em todos aqueles rostos e em todas aquelas figuras humanas, um denominador comum, uma desoladora ausência de beleza exponencial.
 
“As pessoas”, pensei, “não são heróis nem heroínas. Na vida real são personagens comuns.”
 
Como que para confirmar isto, vi a figura de um homem de meia idade, baixo, meio gordo, calvície iniciando entre ralos cabelos grisalhos, lábios caídos como numa ranzinza, um casaco cinzento já fora de moda, calças marrons folgadas e uns sapatos muito usados. O homem, carregando as compras, caminhava com dificuldade e seu esforço para esboçar um sorriso mais parecia um esgar de dor ou fadiga.
 
“Confirma a ideia que eu tenho” pensei subitamente. E então reconheci a pessoa refletida num dos espelhos do supermercado: era, para meu espanto, eu próprio.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

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