Reminiscências fragmentadas

Por: Caio Porfirio

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Minha estreia em livros se deu em 1961, com Trapiá (contos). Ajudado por Ricardo Ramos, que o prefaciou, por Jorge Medauar, Paulo Dantas e Lélio Castro ( Diretor da Editora Francisco Alves, aqui em São Paulo), o meu livro foi programado para sair na badaladíssima ‘Coleção Alvorada’, logo após o lançamento do livro Laços de família, de Clarice Lispector, e anunciado já na orelha da contracapa do livro dela. A coleção só tinha ‘cobra’, escritores famosos. E lá me vi entre autores que só conhecia de nome e leitura.
 
A Clarice Lispector era, há muito, nome nacional. Simples e meiga, creio que até um tanto insegura. Falava com todos com muita humildade. 
 
Pois um dia, no escritório da editora, no andar superior da livraria, pegou-me pelo braço, sentamo-nos num canto da sala e ela me perguntou:
 
- Caio, você acha que vou vender bem no meu lançamento?
 
Tomei um susto:
 
- Você, Clarice?! Pelo amor de Deus! Eu é que estou rezando para vender alguns exemplares, porque o seu anuncia o meu, que vem depois. Eu não conheço ninguém. Estou aparecendo agora.
 
Suspirou, levantou-se:
 
- Não sei não. 
 
O lançamento de Laços de família, dias depois, foi um estouro. Autografou um exemplar para mim naquele sufoco.
 
Depois do lançamento, já muito tarde, abraçou-me:
 
- Fui bem, não fui?
 
Nem respondi. Só pensava no meu Trapiá, que sairia no mês seguinte.
 
 Além da minha família eu só conhecia meia dúzia de ‘gatos pingados’.
 
Clarice Lispector estava no Rio, onde morava, e não viu que para um estreante não fui mal, mas fui um riachinho diante do seu rio encachoeirado de gente. 
 
 
II
 
 
O renomado etnólogo e folclorista Luís da Câmara Cascudo foi eleito Intelectual do Ano em 1977, com o livro O Príncipe Maximiliano no Brasil. Não pôde ir a São Paulo para receber, na sede da União Brasileira de Escritores, o troféu Juca Pato. Embora sadio e forte, lúcido e escrevendo artigos e livros em Natal, onde morava, foi vítima de uma surdez completa. Só conversava com alguém através de bilhetes. 
 
A Universidade de Natal pagou viagem e hotel à comissão que se deslocou para a capital do Rio Grande do Norte para entregar-lhe o troféu. Fiz parte da comissão. Foi uma festa concorrida, na própria Universidade. 
 
Fomos várias vezes à casa de Luís da Câmara Cascudo. Recebeu-nos muito bem e respondia a todos através dos bilhetes que lhe entregavam. Tirei um papel de um bloco sobre a mesa e lhe escrevi um, assinando-o. Perguntei como ele conseguia descobrir passagens mínimas, mas importantes, de tantos nomes ilustres e do nosso passado histórico. Ele leu o bilhete em voz alta, olhou para mim e respondeu:
 
- Descobrindo os cupins da História, Caio.
 
Todos riram e eu também. 
 
 
III
 
 
O escritor Érico Veríssimo, depois de fazer uma concorrida palestra no auditório da antiga sede da União Brasileira de Escritores, na Rua 24 de maio, 250 - 13º andar, aqui em São Paulo, divulgando o lançamento do seu romance O Senhor Embaixador, sentou-se numa roda descontraída, no salão de recepção da sede, da qual participei. Perguntei-lhe, a certa altura, como tinha conseguido escrever o monumental O Tempo e o Vento, obra em três volumes, os três juntos, mais de mil páginas, discorrendo vivamente sobre duzentos anos da história gaúcha, com inúmeros personagens e entreveros continuados. . . Uma epopeia vibrante, palpitante, sem deixar escapar uma ponta sequer.
 
Respondeu:
 
- Um momento só.
 
Levantou-se, atendeu alguém, voltou, sentou-se, pôs a mão no meu ombro:
 
- Nem me fale . . . Me pergunto isto até hoje.
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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