Guloseimas infantis

Por: Chiachiri Filho

O primeiro refrigerante que tomei em minha vida ( lembro-me bem! ) foi um guaraná fabricado pela Cia. Cervejaria Paulista. Tratava-se da famosa Caçulinha, amplamente desejada pela molecada da época.  Tomávamo-la sem gelo. Não abríamos sua tampinha. Com um prego, furávamos a tampinha e , após chacoalhá-la várias vezes, levávamos a garrafinha até a boca e saboreávamos o líquido docinho e sem gelo. Outro refrigerante delicioso era a Crush; a Crush de garrafinha marrom circundada de nervuras. No entanto, a Crush  foi vítma de um boato terrível: ela, segundo as más línguas, provocava o aparecimento de câncer. 
 
Na Praça Nossa Senhora da Conceição, quase em frente ao Relógio do Sol, ficava  um  carrinho de pipocas comandado por um senhor de cabelos pretos, jaleco imaculadamente branco, magro e sério. Além da excelente pipoca e das bexigas  de borracha flutuantes, ele produzia o algodão doce jogando açúcar num disco giratório.
 
Nas vendas de secos e molhados, podiam ser encontrados os pirulitos e as chupetas de doce.  As puxa-puxa e os quebra-queijos estavam por todos os cantos: nas praças e portas de escolas.
 
O chiclete de bola, sabor tuti-fruti, apareceu mais tarde e tornou-se um sucesso geral. Certa  feita, eu fui ao cinema ( Cine Odeon ), sentei-me nas primeiras fileiras  e comecei a mascar o chiclete e estourar as bolas. O cinema estava completamente vazio e o barulho das bolas estouradas não estava amolando ninguém. Contudo, um policial militar, do alto de sua autoridade, foi até mim e deu um ultimato: “ou para de fazer barulho ou vai para fora”. Fiquei mascando silenciosamente  o resto do filme.
 
Depois do almoço, lá  pelas duas horas da tarde, a gente podia ouvir o toque de corneta do sorveteiro.  Ele oferecia sorvetes de groselha, limão e coco. 
 
Não existem mais a Caçulinha e a Crush. O mesmo não acontece com o puxa-puxa, o quebra-queixo, a pipoca, o algodão doce, os chicletes e os picolés. Porém, o que a gente não encontra mais de jeito nenhum é  o sabor doce e suave de nossa infância. Às vezes eu escuto longe, bem longe. O som da corneta do picolezeiro, o  estouro das bolas do chiclete, o chiado da Caçulinha  em contato com meus lábios . Todavia, quanto mais passa o tempo, mais abafados ficam os sons e menos doce fica a vida.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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