O ciclo das águas

Por: José Borges da Silva

Recentes estudos climáticos realizados na Amazônia indicam que há um rio flutuante que vem desde o sopé da Cordilheira dos Antes até a Região Sudeste do Brasil. Segundo essas pesquisas, esse rio alado é formado pela evaporação que vem do Atlântico Norte e por aquela que ocorre na floresta e nos rios da região. Esse rio dos céus é composto por uma imensa camada de nuvens que voa sobre o continente e provoca a maior parte das chuvas da Região Sudeste do Brasil, chegando até aos vizinhos Uruguai e Paraguai. É elemento importante de uma grande parte do clima da América do Sul. Mas, segundo o Relatório do IPCC – Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, divulgado em 2013, esse rio está fadado a desaparecer se ocorrer a eliminação de grande parte da floresta. E quando isso ocorrer, todo o regime das águas das Regiões Sudeste do Brasil e de países vizinhos restará alterado. Na verdade, a previsão do IPCC para a Região ocupada por Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo é bem mais séria. Ela será transformada em um grande deserto. Parece algo catastrófico, mas, não é difícil ver que algo está mudado. Estive em São Paulo no final de agosto passado e passei pelos rios que cruzamos pelo caminho e pude constatar que estão literalmente secando. O rio Sapucaí, que abastece a nossa cidade, não é mais do que um córrego. O rio Pardo que cruzamos nas proximidades de Ribeirão Preto me surpreendeu ao exibir margens com praias nas proximidades da ponte, algo que eu jamais tinha visto. Até o caudaloso Rio Mogi-Guaçu, na entrada da cidade de Porto Ferreira pareceu modesto, exibindo largas praias de areia em lugares em que as águas roçavam a vegetação ciliar nos seus barrancos. E o rio Tietê, que corta a cidade de São Paulo, exibindo largas praias formadas de garrafas plásticas, pneus, e todo tipo de lixo? Mas, foi assustadora a matéria veiculada no Comércio no último domingo, mostrando em detalhes o desaparecimento de minas, córregos, ribeirões e rios da região de Franca. É uma pena. Pode até ser consequência de problemas no grandioso rio alado, já não tão regular, por atravessar por sobre desertos de terras aradas aguardando as chuvas para plantio! Não podemos ser alarmistas, é verdade. As secas não são novidade na região de Ibiraci. Os mais antigos sabem que há um costume antigo de aguar cruzes nessas ocasiões por lá. Mas, será que as secas antigas eram da proporção das que vemos hoje? Enfim, priorizar a produção sem atentar para o equilíbrio do sistema que a propicia parece não ser boa técnica. O ciclo das águas depende das florestas que depende das chuvas que dependem dos ventos...  Será que o engenho humano será capaz de dispensar o equilíbrio ambiental e possibilitar a continuidade da vida? Com a mesma riqueza e diversidade já sabemos que não. Por isso, penso que já passa da hora de todos nós cuidarmos com mais seriedade em tudo isso antes que seja tarde.
 
 
José Borges da Silva, procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras