O terço

Por: Everton de Paula

Dizem que ocorreu em Taboeiras, MG. Não sei precisar se é verdade, mas como o caso é leve, reproduzo aqui com nomes fictícios.
 
Cidade pequena, antiga, com igreja na pracinha central. A mesma pracinha em cuja esquina lateral morava dona Fiota, viúva, católica fervorosa, um primor na cozinha, apesar de octogenária. Muita gente da vizinhança, inclusive de algumas cidadezinhas próximas, iam visitá-la com o pretexto de ver seus caprichosos trabalhos de crochê, mas o que queriam mesmo era uma ou outra receitazinha de bolinho de fubá com hortelã, pudim de doce de leite talhado em tacho de cobre, tutu refogado em banha de porco com nacos de costelinha suína e talhos de couve, licor de jabuticaba, licor de meia de seda, licor de jenipapo... Muita gente conseguia algumas receitas ditadas pela anfitriã, mas nunca atingiam o mesmo sabor que nascia das mãos daquela devota de Senhora da Penha. É que dona Fiota, e só ela sabia, não ensinava a receita completa; esquecia de propósito um ou outro ingrediente essencial para os sabores especiais e delicados. Era seu segredo.
 
Mas a história não é essa.
 
Corria na cidade o pequeno oratório de santa Rita. De madeira de ébano e frente de vidro, com flores de plástico no interior, aos pés da santa, em contraste com o cetim azul de fundo, imitando o céu dos santos. Cada semana ela ficava exposta na sala das casas das devotas. E não era só isso. Quando o oratório chegava às segundas-feiras na casa de alguém, para lá se dirigiam as congregadas católicas e rezavam um terço.
 
No começo, era uma devoção única, fervorosa, pia, uníssona. Mas em época de globalização, nem a mineira Taboeiras escapa. Veio a televisão, a internet na casa de uns poucos, as novelas... E claro, os casos do lugar. 
 
Sucede que, aos poucos, as devotas que se reuniam para o terço junto ao pequeno e gracioso oratório de santa Rita exercitavam uma espécie de preliminares, antes da reza. E era nessas preliminares que a conversa corria solta, embora quase sussurrada, pois que envolvia gentes importantes do lugar: alguém que ficara barrigudinha antes de subir ao altar, o prefeito que não tirava os olhos de uma secretária que tinha os olhos de cabra tonta, o coroinha que roubava vinho do sacrário, a última novela das sete e meia, algum assunto de política e muita tagarelice. Era quando dona Fiota, a mais velha do grupo, dava três palmadinhas no ar e a mulherada toda se calava, persignava-se e a reza começava. 
 
E quanto mais rezavam, mais assunto tinha para se colocar em dia. De modo que as segundas-feiras passaram a ser um agradável encontro para as fofocas.
 
Na casa de dona Fiota era um pouco diferente, mas mesmo assim, logo após a primeira Ave-Maria do terço, alguém pigarreava e não conseguia segurar:
 
- Vocês ficaram sabendo da última?
 
- O quê? Perguntavam todas de olhos e ouvidos arregalados.
 
- Das Mercês aprontou uma das suas, até que se deu mal!
 
- Dona Fiota levantava as mãos para o ar e dizia, lamentando-se:
 
- Assim o terço não vale! Essa reza não vai valer. Vamos começar tudo de novo.
 
- Só um minutinho, dona Fiota, já vamos orar...
 
- Mas foi mesmo?
 
- ... an-an... 
 
- “coisa, cumade! E das Mercês?
 
- Tá na casa da tia, nas Uberaba. Barrigudinha, barrigudinha, esperano o fio nascê...
 
- ... E quem é o pai, o safado do pai?
 
- ... ‘divinha...
 
Dona Fiota deu um basta:
 
- Ah, não, chega. Já e já pro terço.
 
Começavam a rezar. A lenga-lenga ia rapidinho, até terminar logo, pra retornar à conversa inicial.
 
Até que, um dia, dona Fiota teve uma ideia: convidar o padre para o terço. Quem sabe assim a coisa se arranjava.
 
Chegou a noite programada, com licor, sequilhos, e o oratório num canto, refletindo no vidro da portinhola a luz bruxuleante de uma vela indecisa.
 
As comadres só se olhavam pelo canto dos olhos.
 
Dona Fiota foi dar o início à reza, quando o vigário Justino, justo ele, pediu licença e perguntou:
 
- Minhas queridas filhas, devotas de santa Rita, que me dizem da sumida das Mercês?
 
Gente, nem conto o mal-estar que se instalou.
 
Dona Fiota revirou os olhos, pigarreou duas vezes e começou a reza.
 
Entre os esses e erres velados, duas devotas cochichavam:
 
- ... E o pai, quem é o pai?
 
- ... ora, ‘divinha!
 
- ... Fulano?
 
- ... ih, passou longe!
 
- ... Sicrano?
 
- ... ih, ta pra lá do Ceará!
 
- ... Beltrano?
 
- ... arre, que farta de imaginação!
 
- ... Mas então quem é?
 
- ...Ora, ‘divinha!
 
- ... Chiii... só se for quem menos se espera...
 
- ... Tá querendo adivinhar...
 
- ... Só se... Cumadre! ... Não!!!
 
- ... É...
 
- ... O vigário???
 
Ninguém escutou nada, pois o sussurro delas se misturava às ladainhas após o terço.
 
Terminada a reza, o padre abençoou todas as presentes que fizeram o pelo-sinal... Apenas duas devotas não se persignaram. Voltaram as costas e se deliciaram com a brisa noturna que entrava pela janela da sala. Apreciaram o licor de jenipapo e elogiaram muito os sequilhinhos de dona Fiota. Lá fora, na esquina, passou um cego tocando gaita!
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos

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