A Festa da Insignificância

Por: Antonio Gonçalves Filho

267131
Milan Kundera é um escritor controvertido. Duas vezes expulso do Partido Comunista checo, ele ainda foi acusado de denunciar um colega de quarto por ter desertado - o soldado Dvorácek, que passou 14 anos num campo de trabalhos forçados. Em tempo: Dvorácek foi traído por outro, Iva Militká, segundo ele. 
 
Desapontado com o comunismo, Kundera, reformista que acreditava mais no outono que na Primavera de Praga, exilou-se na França, onde vive até hoje.
 
Aos 85 anos, dos quais 14 sem publicar, Kundera, recluso e avesso à imprensa, lançou um pequeno romance, A Festa da Insignificância, que, no Brasil, sai com a tiragem nada insignificante de 20 mil exemplares. É, ao mesmo tempo, um acerto de contas com o passado stalinista e uma crítica aos jovens do presente, autocentrados, individualistas e pouco interessados na história, conforme o retrato algo impiedoso que Kundera faz da geração internética.
 
O livro não tem o frescor nem a amoralidade de A Insustentável Leveza do Ser, cujo título indicava justamente o contrário do que sugeria, ao defender que o peso da experiência existencial é insuportável diante da opressão. Dito isto, não se pode acusar A Festa da Insignificância de ser infiel ao título. Se o quarteto amoroso formado em seu livro mais famoso tinha uma relação real com a paixão - política, sexual -, o quarteto (além do narrador) de A Festa da Insignificância esforça-se para projetar na dimensão real as personas teatrais algo inacabadas de Alain, Ramon, Charles e Calibã.
 
Matando o tempo nos jardins de Luxemburgo, eles enfrentam filas de exposições de arte badaladas, inventam gratuitamente doenças incuráveis para comover os amigos, divertem-se em coquetéis e, principalmente, perseguem as meninas. O primeiro deles, Alain, é o alter ego de Kundera, perplexo diante do umbigo das garotas que desfilam pelas ruas parisienses - a prova mais evidente do hedonismo e da superficialidade dessas jovens conformistas, reduzidas ao mínimo denominador comum que é o centro de seus corpos uniformizados.
 
Nostálgico dos tempos em que, jovem, aos 19 anos, precisava de uma ideologia para viver, filiando-se ao Partido Comunista (em 1948), Kundera logo se recupera desse passadismo e parte para atacar também Stalin e o comunismo, como fez em seu O Livro do Riso e do Esquecimento. É uma denúncia um tanto tardia e já gasta no século 21, quase tanto como a insignificância da cultura contemporânea que Kundera repudia, repleta de falsos mitos nas artes visuais, autores sem grande expressão, cineastas medianos, compositores sem talento e músicos descartáveis. O mundo pós-moderno, em suma, é um horror para o desiludido escritor. 
 
Embora A Festa da Insignificância escape a uma classificação ideológica nos moldes tradicionais, é impossível não identificar no romance um gosto amargo na ironia com que Kundera fala das memórias de Kruchev, ao se referir às piadas que cercavam o mito de seu antecessor Stalin. Não é por reverência que o escritor checo relembra a histórica amizade de Stalin com o revolucionário bolchevique Mikhail Kalinin, que fez o ditador soviético batizar Königsberg com o nome de seu fiel escudeiro (Kaliningrado), mantido até hoje. Ramon, impressionado com a história que Alain conta sobre a ‘ternura’ que Stalin sentia pelo amigo, conclui a segunda parte do romance dizendo que se sente reconciliado com a humanidade por tal exemplo de solidariedade. Fina ironia de Kundera, ao unir o humor de Sterne à filosofia de Nietzsche numa só frase. 
 
Kundera, que escreve em francês desde 1993, segue rigorosamente as regras que estabeleceu em seu A Arte do Romance, livro de não ficção em que usa um número cabalístico para dividir seus romances - no mais recente continua a ser o sete - e não dá muita atenção para a vida interior (ou psicológica) dos personagens. 
 
Isso permite ao leitor construir cada um deles a seu modo, mas pode conduzir a uma leitura reducionista ou equivocada sobre suas motivações, uma vez que esses personagens frequentemente se confundem com suas projeções (como D’Ardelo, ao inventar que tinha um câncer para Ramon). Ainda assim, é incontornável seu retrato da geração selfie, que, paradoxalmente, renunciou à condição de indivíduo para se tornar massa uniformizada.
 
 
MILAN KUNDERA
A família de Kundera pertencia à classe média tcheca. O pai, importante pianista, ensinou o filho, nascido em 1929, a tocar. E este levou a paixão pela música a todas as suas obras. Kundera completou a escola secundária em sua terra natal, Brno, em 1948. Depois estudou literatura e estética na Faculdade de Artes. Em 1950, ele e outro escritor tcheco, Jan Trfulka, foram expulsos do Partido Comunista por ‘atividades anti-partidárias’. Trefulka descreveu o incidente em uma de suas novelas; Kundera o usou como inspiração para o tema principal de seu romance A Brincadeira, de 1967. Readmitido no partido em 1956, foi novamente expulso catorze anos depois. Assim como outros artistas tchecos, envolveu-se na Primavera de Praga em 1968. O período de otimismo, como se sabe, foi apagado em agosto do mesmo ano pela invasão soviética à Tchecoslováquia. Kundera e alguns colegas tentaram acalmar a população e organizar um levante reformista frente ao totalitarismo comunista da União Soviética. Sua luta continuou até 1975, quando se exilou na França. Em 1980 foi-lhe concedida a cidadania francesa. 
 
Kundera começou sua vida literária escrevendo poemas de orientação socialista, mas já no primeiro romance, o citado A Brincadeira, faz uma sátira da natureza do totalitarismo do período comunista. Por força de suas críticas aos soviéticos, seu nome foi adicionado à lista negra do PC e suas obras proibidas logo depois da invasão soviética.
 
Após se mudar para a França, Kundera escreveu em 1979 O livro do riso e do esquecimento, mistura de romance, contos curtos e ensaios. Em 1984 publicou A insutentável leveza do ser, seu trabalho mais popular, grande crônica acerca da frágil natureza do destino, do amor e da liberdade humana. “Nele mostra como a vida é sempre um rascunho de si mesma, nunca é vivida por inteiro; o amor pode ser frágil e é impossível repetir-se”. Seis anos depois veio a público A Imortalidade. Seguiram-se A lentidão, A cortina, Jacques e seu amo, A valsa dos adeuses, Risíveis Amores, A ignorância.
 
Seu estilo, entrelaçando digressões e ensaios filosóficos, é grandemente inspirado em Robert Musil e Friedrich Nietzsche.  (SM)
 
 
LIVRO
 
Título:  A Festa da Insignificância
Autor: Milan Kundera
Tradução: Teresa Bulhões
Editora: Companhia das Letras (136 págs., R$ 36)
 
 
Antonio Gonçalves Filho, jornalista

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras