Fora da ordem

Por: Heloísa Bittar Gimenes

Alguma coisa está fora da ordem
Fora da nova ordem mundial...
 
Caetano Veloso
 
 
Talvez o que eu escreva aqui pareça jargão antigo, moralismo ou afins; porém minha indignação é recente e por isso me arrisco a “levantar a poeira”.
 
Metaforicamente nos ensina o Cristianismo, no ato de fundação da Humanidade, que a princípio  temos o NÃO. “E Deus disse: Não comerás daquele fruto, pois quem o come morrerá” . Ou seja, escolhas e consequências estão colocadas desde o início como sinalizadores de que nem tudo o que quero posso! Isto estabelece uma ordem, regras e impõe hierarquias; quesitos fundamentais dentro da cultura e sociedade, importantes para diferenciar  o Homem  de outras espécies.
 
A novela Império, de Aguinaldo Silva, ao meu ver, chega a ser obscena na sua intenção. Primeiro, o dinheiro é o ordenador na maioria das relações. É a lei do -  “ Vale, vale tudo!” – como cantava Tim Maia.  Seleciono duas situações dentre tantas bizarras. José Alfredo – Comendador, vive um casamento para manter as aparências com Maria Martha; tem uma amante, Maria Isis, a qual desperta cobiça e desejo no próprio filho, João Lucas. Pai e filho disputando a mesma mulher e, ainda por cima, há todo um incentivo da mãe (Maria Martha) para o que o filho parta para cima da amante do pai e “devolva” o marido a ela. Será mesmo que isso é realmente um retrato do nosso dia-a-dia? Parece que sim, pois na novela anterior havia mãe e filha apaixonadas pelo mesmo homem. O autor sugere  a todo instante querer acabar com a hierarquia, minimizando os papéis ocupados na família (pai, mãe, filhos, etc) e consequentemente nos convida   a irmos buscar  a loucura, a balbúrdia, a violência. 
 
Bem, outra “pérola” da novela fica por conta da família : Severo (pai),  Magnólia( mãe),Maria Isis (filha), Roberto (filho).  Os pais querem se enriquecer  por meio dos filhos.  A filha  tem um caso com o poderoso José Alfredo, e o filho faz programas sexuais com o mesmo fim. Isso não é canalhice?
 
Concordo que existem casos como estes e muito piores; mas acho também que não devemos perder a capacidade de nos indignar e refletir a respeito dos temas. Vamos ocupando o lugar de “espectadores passivos” e assim corremos o risco de banalizar horrores e nos tornarmos indiferentes ao mundo que nos circunda. 
 
Burlar, ignorar, desrespeitar este NÃO que funda a civilização, é perder o rumo da própria Humanidade; é retroagir como espécie, algo bem próximo do animalesco.
 
Sem dúvida nenhuma, cada época com suas ordens e desordens; com seus problemas e suas soluções. Por ora, o mundo se mostra violento não só por armas, guerras, doenças; mas também pela nossa postura cínica (tipo “tô nem aí”com a falta de respeito) aparecem como provocadores de uma grande anarquia. Comemos o fruto proibido, e aí?!. Realmente, alguma coisa está fora da ordem, fora da ordem mundial!.
 
 
Heloísa Bittar Gimenes, psicóloga
 

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