Franca – Ce.

Por: Paulo Rubens Gimenes

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“Nordeste é uma ficção, 
Nordeste nunca houve”
 
Belchior 
Conheço Meu Lugar
 
 
Escorado pelo sucesso de um único evento - a ‘Noite Sem Preconceito’ - realizada em sociedade com o mineiro Elder e com o ‘quase mineiro’ Biriba, fui convidado como consultor de eventos pelo Diretório Acadêmico da Unesp.
 
Leitores assíduos da ‘Tribuna Operária’ e militantes de esquerda, os membros deste diretório tinham pouco ‘tino’ para negócios, para ganhar dinheiro (praga capitalista condenada por eles); mas, perceberam que, acima de qualquer idealismo, o vil metal era necessário para manter o D.A. e que as festas tradicionais lá realizadas - regadas a muita pinga e som revolucionariamente estridente de Elba Ramalho - não davam lucro.
 
Então, chamaram aquele estudante de Direito, camisa pra dentro da calça, sapatos, meio ‘burguês’ e com alguma experiência em eventos para uma parceria lucrativa. 
 
De cara propus um show do Belchior, cantor de grande sucesso no meio universitário bem antes deste ser invadido pelos sertanejos universitários ( argh!). Já era fã do artista e imaginei que agradaria em cheio a turma do D.A. Ledo engano, pretendiam uma coisa mais ‘comercial’, queriam era ganhar dinheiro e Belchior, por estar fora da mídia, seria um risco muito grande.
 
Apesar da negativa, o show de Belchior já estava em minha cabeça e, assim sendo, procurei novos parceiros: Ismar - amigo que também adorava o Belchior - e Pezé e André, que não curtiam tanto o cantor, mas eram grandes amigos a ponto de entrar nesta aventura.
 
26 de outubro de 1985 - Dia do show. Estávamos aprendendo a duras penas o que os comunistas do D.A. já tinham percebido, Belchior ‘não dava dinheiro’. Apesar de todos os esforços a venda de ingressos estava muito baixa e para piorar ainda mais, depois de uma grande estiagem, a chuva desabou sobre Franca.
 
Entre a correria pra organizar o Poliesportivo para o show, eu e Ismar arranjamos um tempinho e fomos até o Hotel Imperador conhecer nosso ídolo. Um pouco incrédulo sobre a possibilidade de aqueles dois jovens serem os organizadores do show, o cantor nos recebeu em seu apartamento.
 
Figura muito simples e acessível, aos poucos a conversa rolou animada entre nós três. Foi então que, em meio ao assunto sobre os preparativos para o show, praguejei a chuva torrencial que caía sobre a cidade. Belchior, com sua voz peculiar, cantarolou:
 
- Lá de onde venho, do interior do Ceará, chuva quando cai é bênção e ninguém pode ‘praguejá’...
 
No auge de minha juventude, e morando numa região pródiga de água, considerei aquela frase mais uma pérola poética do grande compositor.
 
O show aconteceu sem grandes percalços ou prejuízos; e hoje, passados quase trinta anos, convivendo com uma seca intensa na região, quando vejo alguém desperdiçando água penso que, como eu na juventude, não entenderam a ironia de Belchior quando canta: ‘Nordeste é uma ficção, Nordeste nunca houve...’
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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