O príncipe dorminhoco

Por: Chiachiri Filho

As famílias guardam características físicas e comportamentais  que  prolongam-se  e permanecem por varias   gerações. Os Figueiredo, por exemplo, gostam de música. Os Faleiros, de literatura. Os Taveira são conhecidos pelo controle  eficiente de suas finanças. Os Junqueira são, geralmente, objetivos, sisudos, de poucas palavras.
 
Contam que Celso Torquato Junqueira, rico fazendeiro da região de Orlândia e Morro Agudo, já falecido, ao negociar a compra de uma boiada , foi curto e grosso. Perguntou ao vendedor:
 
- Quanto o  Senhor  quer pelos bois?
 
O vendedor, pensando na possibilidade de um regateio, declarou a quantia e o Junqueira fez uma contra -proposta que foi recusada. Diante da recusa ele não esticou a conversa. Antes de virar as costas, disse ao vendedor:
 
- Então, o Senhor passe  muito bem!
 
Sobre Celso Junqueira corre ainda uma história envolvendo-o com o Príncipe de Gales que, lá pelos meados do século passado, esteve em visita à região. Entre a família real britânica e os Junqueira, há alguns hábitos comuns como a equitação, o jogo de polo e as caçadas.  Celso, procurando agradar o Príncipe, convidou-o para uma caçada ao veado, prática preferida e tradicional da família. No dia e horário combinados, Celso foi até a sede da fazenda onde o Príncipe estava hospedado. Lá chegando, comunicou ao diplomata de plantão que estava esperando o Príncipe para uma caçada. O relógio marcava 5 horas da manhã e o diplomata não teve dúvidas em dizer ao Junqueira:
 
- Meu caro Senhor, não se pode acordar um Príncipe. Nós esperamos que Sua Alteza  desperte por si próprio.
 
Celso Junqueira, sem titubear, disse ao diplomata:
 
- Pois então o Senhor diga a Sua Alteza que  ele acabou de perder uma grande caçada.
 
Ajuntou a cachorrada , deu meia volta  ao  cavalo e partiu com o seu grupo para a mata onde estavam os veados.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 

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