Desejo primaveril

Por: Hélio França

Chegou desconfiada, sem muito alvoroço, respirando um ar com pouquíssima umidade, o que a deixou sedenta e menos colorida que de costume. Os ipês já despidos das amarelas, rosas e brancas flores não puderam recepcioná-la com toda sua formosura e glamour. Mas ela veio assim mesmo , querendo trazer a tiracolo as primeiras chuvas ainda tímidas, porém capazes de produzir algum cheiro de chão molhado, que tão distante esteve de nossa alma olfativa. 
 
Diabo de ano ruim de chuva ! Poeirão danado entrando pelos pulmões. Pele seca, sol abrasador minguando nascentes. Plantas desidratadas com as raízes retorcidas, quase sem forças  para buscar na profundidade do solo ainda algum resquício de umidade. 
 
No entanto, as flores vão se abrindo aos poucos, querendo abraçar a alegria da profusão de cores, sorvendo as primeiras gotículas de chuviscos esparsos. Ela chega insinuando a chuva tão desejada e um  verde tão distante dos nossos suplicantes olhos. 
 
Bem-vinda !  Que sua roupagem primaveril possa irradiar o fascínio aos descrentes da beleza  e da paixão pela vida !  Que seus tons e nuances possam colorir as árvores e o solo, e, como as flores às abelhas, possam atrair nuvens carregadas, propensas a chorar de alegria sobre a terra sedenta, inundando os sonhos de realidade ! 
 
Mais que as necessidades de lábios ressecados, já que as bocas pedem o precioso líquido, existe o desejo premente de vê-la, primavera, ungida pela benção dos céus ... 
 
Venha !  Apesar do déficit hídrico, e mesmo que seja uma impressão, como a tela do sol nascente de Monet, tênue, misteriosa, quase indecifrável, porém deliciosamente questionada pelos olhares ávidos de seus véus multicores e estupidamente desejada pelos mistérios da alma. 
 
Se não puder nos dar completamente todos os lilases, os amarelos, os azuis, carmins, rosas e até os brancos. Mesmo desprovida de cores, venha. Mesmo sedenta e quase desnuda, mostre-se sem timidez. Mesmo que ainda esteja chegando como se fosse uma despedida... Bem-vinda !
 
 
Hélio França, engenheiro e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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