José e Maria

Por: Maria Luiza Salomão

Em busca de um rastro ético através dos tempos
 
Nem José, nem Maria eram pais daquele que Maria carrega no ventre. 
 
Três sacerdotes de países distantes sabiam que aquele bebê era um ser especial. Seguiram a estrela Polar e alarmaram Herodes, que se sentiu ameaçado por uma promessa de mudança. Que mudança era aquela, que José parecia saber, e também Maria? 
 
Aquele homem e aquela mulher foram perseguidos por Herodes, e, depois, quando o bebê cresceu, por uma turba odienta, bastante dividida.
 
Como é possível que nem José, nem Maria, nem os dois juntos, não tenham fabricado aquele bebê e, mesmo assim, estejam ali expostos ao ridículo querendo se mostrar pais do bebê, que não é nem de um, nem do outro, nem dos dois? 
 
José e Maria se colocam ousadamente, como veículos, para fazer nascer um bebê poderosamente frágil. Sabem que ele será sacrificado, ao final, sem culpa de nenhum dos dois, mas vítima da massa ignara do potencial daquele bebê na vida de todo mundo. 
 
Ninguém, na massa turbulenta, parece reconhecer o bebê como sendo de todos. Bebê nascido em manjedoura, no meio de animais, cavernas e florestas. Perseguido assim, temido assim, como ele traria esperança e boas novas? 
 
Ele tem que ficar escondido na caverna, entre José e Maria, naquela noite fria, muito fria, em que apenas os sacerdotes se locomovem, sonhadores, vindos de pontos distantes. Três nobres homens que, humildemente, atravessam caminhos no meio da noite para saudar aquele, entre dois seres que não respondem pela sua origem, que faz luzir uma estrela-guia nos céus. 
 
Os sacerdotes não vão adotar o bebê, mas trarão presentes, e desejos de paz e de bem-aventurança. Estranhos presentes simbólicos: a Riqueza, ouro, origem do bebê; a Fé, mirra, promessa-fumaça divina; a Morte, mirra, a perene vitoriosa, a boa conselheira, a única a dizimar a ambição desmesurada de Poder. 
 
Se nem Maria, nem José são os pais - de onde vem esse menino? Qual é a sua origem? Quem há de se responsabilizar por ele? 
 
Um bebê deveras misterioso, selado para o sofrimento, dele e de muitos que acreditarão nele, e que, por isso, serão perseguidos. Naquele dia, entre palhas voadoras, o bebê é um sobrevivente. Outros bebês morrerão, equivocadamente, mortos pela violenta vontade política de não permitir interferências, do céu ou do inferno, no destino de todos. 
 
Qual será o destino do bebê? Pobre, odiando pai e mãe, como viver tão solitário? José terá que aprender a organizar a casa, sustentar Maria e o bebê, contra meio mundo. Maria terá que aprender a liberar o bebê para crescer e mostrar seus poderes, para outro meio mundo. 
 
Quem saberá discriminar os Herodes dos guardiões da força ética e criativa do bebê - no futuro? Quem acreditará na ressurreição do homem, outrora bebê, ao ser morto reiteradas vezes pela imensa maioria, que não o vê todos os dias e não o ouve todas as noites?
 
Quem? 
 
Quem? 
 
Quem?
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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