Prelúdio

Por: Eny Miranda

A noite foi lenta, abafada, e o dia ainda não acordou. Pulmões respiram o mesmo ar, denso, pesado, sufocante. 
 
Levanto-me. Forço uma inspiração profunda. O peito se expande com dificuldade. Os olhos buscam outros olhos, mais leves, mais claros. Mas da janela aberta quem me encara é uma enorme, obscura tela, obliterando o espaço, impedindo ins e aspirações. Imagens imprecisas nela se sobrepõem, palimpsesto em mil camadas de cinza. O coração, contudo, sabe: por trás do passivo e maciço gris, o caldeirão do dia já foi posto sobre potente chama. A manhã está prestes a entrar em ebulição. O ar, as águas, a terra... pulsam em surdina.
 
Promessas de cor devem estar a caminho, fios trazidos pelo vento ainda embrionário, para se juntarem - grandes novelos - à luz difusamente insinuada no espaço. Finas hastes de verdes renovados provavelmente se desenrolam na lufa-lufa invisível do seio do mundo. A cantoria dos pardais, dos bem-te-vis, das maritacas... trará as notas que abrem e fecham os olhos da noite. E a aurora, com seu hálito de orvalho e musgo, dirá, em conhecida e esperada sintaxe, que é hora de acordar outros sons e cheiros. Aguardo, ansiosa, esse momento-limite que fala de vida na morte.
 
Hoje, porém, algo parece impedir a articulação dessa fala, a expressão livre desse canto, que o coração sabe e os olhos anseiam. O cinza não se dissolve, insiste em refletir as mesmas espessas nuanças de quem o observa com olhos secos e peito sufocado. Só a alma começa a pressentir, ao longe, os ruídos da alforria. Cabe a ela ouvir seus líquidos sinais. 
 
Logo um rio deverá correr verticalmente sobre a janela e o mundo que por trás dela se esconde, derretendo de vez a cena estagnada, lavando aspirações das nuvens mais ambiciosas, desanuviando o ar, expandindo pulmões, oxigenando, alimentando... em concerto regido desde os mais remotos caudais. Choverá muito: nas pedras, nas penas, nos pássaros, nas gentes... Choverá nas folhas suplicantes, nas queimadas sobre morros e galhos e troncos... Choverá no mar, na terra, no ar, nos cantos, nas dores, nos cheiros, nas falas... Choverá nos leitos gretados e nas muitas águas de todos os rios. Nascerão rios em meus olhos secos. Respirarei o ar alforriado. Respirarei livremente.
 
A manhã, afinal, acordará na terra lavrada, na alma lavada, no perfume do café coado e dos pães saídos do forno. 
 
Arco-íris espocarão na alma das gentes.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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