Dentro do ônibus

Por: Júlia Moscardini

Sentia uma terrível dor nas costas e no pescoço porque era grande o esforço que fazia para segurar a bolsa e se segurar. Tinha lido muito sobre assaltos dentro dos meios de transporte públicos e temia um possível ataque a todo o momento que alguém que ela julgava estranho demais e se aproximava. O jeito era se agarrar à bolsa o mais forte que podia para proteger seus pertences e se proteger também, como se pudesse esconder-se atrás de uma capanga de panos bordada. O mau jeito e a dor não aliviavam, somente trocavam de lado, porque depois do metrô vinha o ônibus e esse era o martírio de todos os dias. Ao entrar na condução, mal conseguia abrir a bolsa para pegar o cartão com o desconto para transitar nas linhas da Região Metropolitana. Era mais gente do que o ônibus realmente capaz de suportar. Todos espremidos, raivosos, apressados e suando litros mais litros. E isso era coisa que talvez a pobre interiorana não fosse entender nunca, o clima naquela cidade. Sair de casa às seis da manhã agasalhada e ainda batendo o queixo de frio debaixo de uma garoa lenta e espaçosa. Ao entrar nos meios de transporte, transpirar horrores... Naquele dia, sentiu grande vontade de tirar aquela jaqueta, mas era impossibilitada  pelos cotovelos, braços, cabeças e sacolas ao redor. Poderia também perder o equilíbrio e cair, já que seguia de pé agarrada a uma barra de metal no teto do ônibus. Fazia um calor imenso; no ar, cheiro de suor que lembrava de longe o forte aroma de cebolas fritas. As janelas encontravam-se emperradas e ninguém se atrevia a abri-las. As paradas bruscas seguidas de constantes aceleradas e curvas sinuosas acompanhadas de um odor putrefato, da falta de espaço e da capacidade de tirar a jaqueta foram lhe causando certa claustrofobia apavorante. Desde criança tivera problemas com veículos em movimento. Mesmo em curtas viagens era necessário o pai parar o carro para que ela pudesse sair e respirar ar puro. A se ver presa dentro do carro com as outras pessoas era como se estivesse amarrada e essa sensação lhe causava náuseas. Ali, dentro do ônibus, começava a sentir os mesmos sintomas, enclausurada e com o estômago a dar voltas. Achou que ia perder os sentidos, ou mesmo pôr para fora o que a agitava por dentro. Abaixou a cabeça, respirou fundo e engoliu a saliva compulsivamente, como se ela fosse segurar o que estava prestes a sair. Alguns minutos depois já estava melhor. Fim da linha; era hora de descer.
 
 
Julia Moscardini, Mestre em Estudos Literários

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