Uma romancista verdadeira

Por: Sônia Machiavelli

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Javier Marías Franco é sinônimo de excelência nas letras espanholas, onde assina pelo menos uma dezena de títulos na ficção e centenas de artigos e ensaios em jornais. Um destes últimos, traduzido para o português, foi publicado na Ilustríssima da Folha de São Paulo em julho. Chama-se Sete razões para não escrever um romance e uma para escrevê-lo.
 
Depois de destacar que romance não dá dinheiro, não leva à imortalidade, não adula a vaidade, etc, o ensaísta revela o motivo primeiro e último pelo qual o escritor é levado a tal empreitada. É que ela lhe permite viver por algum tempo naquele espaço menos desconfortável em relação à realidade que é “o reino do que pôde ser e nunca foi”. Marías ressalta que esta é a condição que revela o romancista verdadeiro, e o difere do romancista realista: “O verdadeiro não reflete a realidade, mas sim a irrealidade”.
 
Isto posto, é assim que vejo Vanessa Maranha, romancista verdadeira cuja escrita se expande e robustece em contagem regressiva, grafado assim com minúsculas. Aqui não encontro uma autora que ao escrever permanece instalada no território do que é e do que acontece, confundindo sua atividade com a do cronista, do repórter e do documentarista. Aqui reconheço o ser criador, que retira do sumo das emoções, do específico das percepções, do intrincado das conexões com o mundo e dos níveis mais profundos da vida psíquica o material com que engendra personagens e enredos. Não necessariamente nesta ordem. 
 
Por isso me pergunto em que momento surgiu João, aquele senhor tão lúcido que se interna numa clínica psiquiátrica. O menino precedeu o adulto? Ou foi no movimento inverso que ganhou contornos e vísceras, fisionomia e alma? Em que instante ocorreu à autora lançar mão da expressiva metáfora da caixa de correspondência manipulada por João e Romão, tão perfeito símile da criação literária? E Nicolau? De que altura terá caído este anjo ou de que âmago emergiu? As indagações são muitas. Ter lido um post de José Antônio Coelho, marido de Vanessa Maranha, sobre o fato de a escritora levantar-se no meio da noite para anotar algo num caderninho, me permite pensar que alguns detalhes de sua instigante ficção nascem também nos misteriosos espaços oníricos.
 
As especulações do parágrafo anterior podem até alimentar a curiosidade de alguns leitores quanto ao mistério que é a gênese da obra literária. Mas a maioria deles quer mais é devorar a história, saber o que vem pelas páginas seguintes a partir do instante em que o suspense, elemento tão romanesco, é instaurado. No relato linear, não é difícil ao ficcionista garanti-lo. Mas na narrativa fragmentada, como é contagem regressiva, exigem-se muitos recursos para manter a leitura enquanto atividade lúdica. Vanessa Maranha responde ao desafio trabalhando enunciado e enunciação com engenho e arte. 
 
Na plataforma formal as palavras mais simples refletem a riqueza do léxico. A sintaxe clara caracteriza-se por frases curtas que podem soar como aforismo ( “meio amor é amor nenhum”- cap. 3), síntese de um personagem (“Um homem que engolira as palavras; o meu pai”- cap.15), representação do mito na vida cotidiana (...e só aí percebi que era portuguesa a Erínia destacada do Tártaro- cap. 6)... As enumerações, traço estilístico recorrente, realçam caracteres, adensam informações ou intensificam sinestesias.
 
No estofo narrativo, personagens são construídas com pinceladas impressionistas. É da soma de inúmeros pequenos traços que nossa visão global delas vai se completando ao longo das páginas. Ao separar cada vida em muitas vidas, diferentes de acordo com o tempo e as circunstâncias, a autora obedece ao mesmo processo de composição que se tornou caro a alguns nomes da pintura. Ela principalmente colore suas criaturas com tintas humanas, sem maniqueísmos, sob olhar compassivo.
 
Ler contagem regressiva é conferir a força com a qual chega ao século XXI o romance. Reconfigurando-se sempre, o gênero que nunca saiu de cena mostra ao leitor contemporâneo sua plena capacidade de provocar reflexões sobre questões humanas que permanecem eternas. No caso de contagem regressiva, elas respondem pelos nomes de solidão, amor, desamor, amizade, decadência, precariedade e finitude.
 
 A ficção de Vanessa Maranha pode representar para o leitor uma contribuição à vida que se almeja adulta, num mundo onde infância e adolescência se prolongam cada vez mais. Amadurecer talvez signifique também aceitar que em algum nível estamos fazendo nossa própria contagem regressiva. Uma hora que avança é uma hora que se subtrai. 
 
Ter consciência desta verdade pode doer. Mas pode também estimular o aproveitamento de cada minuto em sua plenitude.
 
 
Ficcionista premiada
 
Vanessa Maranha nasceu em 1972. É psicóloga clínica com várias especializações .Foi colunista do Jornal Comércio da Franca e da Revista Luso-Brasileira Pessoa. Escreveu para o Caderno B do Jornal do Brasil.
 
Seu primeiro livro, As Coisas da Vida, publicado em 1995 (Editora Ateniense), reuniu contos produzidos desde a adolescência. O segundo, Cadernos Vermelhos (Ribeirão Gráfica Editora) foi definido como feixe de fragmentos. Oitocentos e sete dias, de 2012 (Editora Multifoco), é também uma antologia de contos. Do mesmo gênero são os textos publicados em 2014 sob título Quando não somos mais. Já contagem regressiva é o primeiro romance da autora.
 
Desde 2001 Vanessa Maranha vem acumulando prêmios pela escrita autoral que imprime à sua ficção. Naquele ano, entrou na lista de finalistas do Prêmio Guimarães Rosa da Radio France Internationale com um texto em francês. Em 2005 teve conto publicado no livro +30 Mulheres que Estão Fazendo a Nova Literatura Brasileira, organizado por Luiz Ruffato e editado pela Record. No ano anterior, venceu concurso de contos promovido pela Universidade Federal de São João Del Rey. Em março de 2007 Vodka foi publicado pela revista Cult; em maio do mesmo ano, Estigma saiu na Bravo! Neste mesmo ano seu texto para crianças, A azeitona fujona, recebeu Menção Honrosa no Chile. Os anos de 2010 e 2011 registram sua presença na Flip como participante de importantes oficinas sobre crítica e jornalismo literários. 2012 marca a conquista do Prêmio Off Flip por Oitocentos e sete dias. No final de 2013, vence o Prêmio Ufes de Literatura, da Universidade Federal do Espírito Santo, com o livro de contos Quando não somos mais. Entre 2013 e 2014, contagem regressiva torna-se finalista do Prêmio Sesc de Literatura e Oitocentos e sete dias ganha o Prêmio Barueri de Literatura. 
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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