Naquela sala

Por: Eduardo Pereira Monteiro

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E estávamos todos lá, filhos, netos, bisnetos, todos, ou quase todos. Seria Natal, Ano Novo, mais um ano de vida? Seria, talvez, alguma comemoração? Talvez nenhum de nós soubéssemos, ao certo, o mistério que se passava ali.
 
Nosso avô, naquele dia, não mais estava contando as famosas histórias de seu tempo, histórias que, por vezes, se repetiam, mas que mantinham viva a sua invejável memória. Memória esta que não só guardava com perfeita exatidão os aniversários de seus ascendentes e descendentes, mas que guardava também o seu equilíbrio e a sua serenidade.
 
Nunca antes havíamos ficado uma noite inteira ao seu lado. E nunca havíamos ficado mais do que alguns minutos, estando ao seu lado, sem ouvir a sua voz. Naquela sala, cumprimentos e despedidas eram em um prazo tão tênue quanto a vida e morte. Seria este prazo um findo prazo? Não, não poderia, tínhamos certeza que não! Ele apenas não estava bem disposto aquele dia, tínhamos que entender.
 
E nascia o dia, e mais uma vez estranhávamos o porquê de ainda estar tão calado. Estaria magoado conosco? O fato era que ninguém ousou interrogá-lo. A dor de uma possível falta de resposta certamente seria mais forte do que as hipóteses dos porquês. O seu silêncio e a sua solidão nos diziam o que não queríamos ouvir e, muito menos, guarnecer. 
 
Nosso avô.
 
O Sol por entre as janelas daquela sala não mais refletia o que o Sol da janela da cozinha da casa em que vivia já há 89 anos – da nossa casa, da casa de todos da família, era o que ele sempre dizia – refletia. Seria o mesmo Sol? Aquele Sol não simbolizava mais a vida, era antes um aviso de que já estava na hora, mas na hora de quê? O patriarca da família sequer conversou conosco, como poderia assim ir embora? Como poderiam levá-lo assim sem a sua autorização? E se quiséssemos que ele voltasse para a casa, para nossa casa? E se ele também quisesse estar lá conosco?  Não podem levá-lo assim, não podem.
 
E como se o que estivéssemos sentindo fosse totalmente ignorado, e o tempo, sagaz e cruel, houvesse chegado. Ajudamos a levar nosso avô aonde menos queríamos que ele estivesse. Era como se aquele Sol traidor que nos dá vida estivesse predeterminado também quando tirá-la. Era como se a mesma natureza que nos alimenta tirasse de nós a vital presença das pessoas que tanto amamos. 
 
E sem dó, sem piedade alguma, essa mesma natureza tomou de nós nosso verdadeiro tesouro, tomou de nós o que talvez nunca tenha sido nosso, e deixou em nós a eterna saudade, a saudade de nosso eterno e amado avô.
 
 
Eduardo Pereira Monteiro, francano, cursa Direito na Universidade de Coimbra

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