Laços não desatados

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Não me surpreendi quando soube do acontecido, pois com a opressora formação que teve, ele viveu, a duras penas, o seu tempo aqui na Terra. Escolhera a varanda interna de sua casa para amarrar, numa trave, o lençol que enlaçou em seu pescoço e, com a ajuda de uma cadeira, foi-se para outro mundo, não sem antes agoniar por um bom tempo. Não conseguira desatar-se de suas vivências anteriores e adaptar-se a novas situações. Nascera numa família coercitiva, autossuficiente e preconceituosa em relação ao que não dissesse respeito a eles. Os méritos, sucessos, procedimentos de outros não lhes interessavam, pois se consideravam superiores, num complexo de nobreza. Ele moldou-se idealizando os seus membros, considerando-os imaculados e não passíveis de erros. Refém do temor aprendeu a não criticá-los, jamais ofendê-los e a prejudicar-se mesmo estando certo. Nunca poderia dar razão a alguém que não concordasse com eles. Era uma convivência funcional até que ele, jovem bem apessoado, resolvera casar-se. Não lhe foi difícil encontrar uma moça simples, direita que lhe quisesse bem. Tão logo se casaram, como Narciso, ele não gostou do que viu. Não era a “sua” casa e nem a mesma decoração, que por sinal odiou. Os pratos que sua mulher lhe preparava eram horríveis. Conversas e pessoas estranhas ao seu antigo convívio eram–lhe enfadonhas. Referia-se a todos com desdém e críticas negativas. Para compensar, ia três vezes ao dia à casa de sua mãe. Voltava feliz e eufórico. Quando lhe nasceu um filho, amou-o muito, mas conforme crescia sentiu que era diferente. Novos hábitos, escolas, tecnologia. Não tinha os mesmos costumes que seus irmãos, nem a mesma submissão à mãe como ele. Sua mulher, preterida e injustiçada, alertava-o para que reconhecesse a nova família. Ele dizia que jamais iria indispor-se com alguém de sua família biológica e que ela era mais importante para ele. Deixava-a em sua insignificância, aos prantos. Se ela insistisse e argumentasse, ameaçava-a, chegando a lhe dar socos no queixo, tapas e empurrões.
 
Suas frustrações iam-se acumulando. Tinha uma vida nefasta. Sem conseguir desprender-se do velho para receber o novo, sentindo-se atormentado pela culpa por ter se casado e deixado sua casa, incapaz de estabelecer novas ligações, só lhe restava o laço do alvo lençol.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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