Apesar de mim

Por: Heloísa Bittar Gimenes

Sigo inventando e reinventando; vejo-me sempre fazendo “ligações necessárias” para me manter nessa caminhada, numa estrada invariavelmente incerta.
 
Primeiro meus pais, depois meus irmãos, familiares, amigos; cada pessoa com quem convivi e ainda convivo, ajudou ou ainda ajuda a formar-me como pessoa.  Vou me reconhecendo nos detalhes das minhas palavras, nas nuances das escolhas,  na sutileza da minha escuta, na vontade de amar e assim por diante.
 
O tempo e os fatos funcionam como marcos. Sulcam nosso rosto, lapidam nossa alma. Ora como protagonista, ora como coadjuvante, escrevo histórias. Já percebi que na matemática do Humano, “um mais um não é dois”, sempre sobram restos. Restos estes que me fazem às vezes questionar o livre arbítrio, a fé, minha própria razão, minha existência.
 
E quanto mais me questiono, menos sei  responder. Sinto-me estranha de mim mesma. É olhar para o espelho e perguntar-se:  Quem é você? Essa é a história que você planejou viver? E para cada pergunta, uma outra e outra ... Vejo-me pelo avesso. Apareço justamente onde não pensei,  onde não calculei, onde não escolhi.
 
Lá vai a vida e eu atrás dela. Impossível resgatar o que foi. O incompreensível e desafiador é viver o que será. Quem serei  daqui algum tempo?
 
Compreendo que muitas perguntas podem trazer confusão e angústia. Talvez seja nas tapeações, que vamos arrumando pelo caminho, que achamos sentido para nós mesmos. Tapeações? Sim, pois na realidade o sentido será sempre relativo e provisório, até que se ache outro e outro. Então vamos recheando os dias -  disso, daquilo e daquilo outro. 
 
Percurso Vida! Acontece comigo e apesar de mim.
 
E assim vou me achando nas minhas perdas. Até que um dia a Terra enterre o que o Céu irá desenterrar. 
 
 
Heloísa Bittar Gimenes, psicóloga
 
 

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