A arte da imobilidade

Por: Maria Luiza Salomão

Conversando com uma amiga professora, ela me fala de uma atividade que desenvolve com as crianças - a estátua viva. Estão nas ruas, em parques, praças, em todo o mundo, as estátuas vivas. Homens e mulheres se pintam, usam vestes e fazem poses como se fossem estátuas, às vezes mimetizam um personagem: um anjo, um faraó. Uma cena pode ser evocada. Em raros momentos a estátua se mexe, faz uma mímica poética que nos assombra, já que se integra à paisagem. 
 
Força muscular e tonicidade, autodisciplina e concentração para ficar como estátua, sem mover um músculo por largo período de tempo. Quieta, silente, a pessoa-estátua se posta em seu pedestal: recolhe trocados dos passantes apressados.
 
Qual teria sido a primeira estátua viva? Vi, pela primeira vez, uma dessas em Barcelona, um D. Quijote de La Mancha, na rambla. Admirada e grata pelo atávico recuerdo espanhol, guardei dele uma foto, esse jeito de virar estátua viva em um instantâneo, sem esforço algum. 
 
Vivemos uma época de urgências, premências em relação a tempo, e talvez não seja por acaso que a Arte trouxe esse novo conceito performático. A imobilidade pode ser criativa e traz a lembrança de uma velha brincadeira: do jogo de “estátua”, quando crianças. Fotografávamos nossos selfies com o nosso corpo; a senha era “estátua!”: paralisávamos o movimento ao ouvir a senha, e produzíamos poses divertidas. Se não permanecêssemos imóveis, éramos punidos: a regra era engessar o movimento. 
 
Imobilidade é coisa criativa, porque estamos (existimos?) permanentemente em movimento. Vísceras cantam à revelia, no interior do nosso corpo; velozes pensamentos se entrecruzam em trânsito infinito; sentimentos nebulosos voláteis se alternam; somente a morte interrompe o fluxo contínuo, cessando a anárquica pulsação. 
 
Paradoxal experiência. Manter o corpo quieto, alma congelada - estando vivos? O esforço de fotografar a vida no ato é inusitado, já que a vida não pede passagem, vai passando...
 
Como parar um rio com as mãos? 
 
Ao meditar - meu modo de ser-estar estátua viva - sinto que a alma, o cérebro, as veias pulsantes, tomam um banho refrescante de hortelã. No repente, o mundo esvanece, ou o mundo todo está ao meu lado, ou me ligo a tudo, ao todo. 
 
Não sei o que uma estátua viva sente ao reter seus interiores e exteriores movimentos, ao se manter impassível. Ao contemplá-la vivencio o encanto de entrar em uma catedral anímica, de ouvir música inexistente, suave e distante. Algo em mim silencia e abisma, em sinergia estática, extática mente.
 
Imobilidade e silêncio são corretores éticos quando se está envenenado de ódio e de preconceitos, de racismo e de arrogância, a bestializar os sentidos. 
 
Vida em excesso desborda, dispersa, fragmenta, evapora como chuviscos na primavera tropical. A energia vital se condensa com delimitação voluntária, eleita. 
 
Paradoxalmente, ao silenciar corpo e mente, acontece uma expansão inesperada e infinita: como os diques fazem com as águas dos rios, a energia da imobilidade interior transluz. 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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