O escritor José Mauro de Vasconcelos

Por: Caio Porfirio

Tornei-me amigo do escritor José Mauro de Vasconcelos desde não sei quando. Era um tipo doentiamente narcisista. Ele era o melhor e acabou. Quando a Editora Melhoramentos fez com ele um contrato para lançar todos os seus livros, na década de sessenta, passou a vender horrores. O livro Meu Pé de Laranja Lima vendia como água. E os outros, desde o de estreia, Banana Brava, foram-lhe ao encalço. Havia propaganda da sua obra, já em mais de dez títulos, até nos ônibus.
 
Pouco antes desse contrato milionário, publicou ele, pela Editora Hucitec, o romance Confissões do Frei Abóbora, do qual não gostei muito. Eu já me dava bem com ele. Mas, como não gostei do livro, redigi uma resenha curta para a página literária do Judas Isgorogota, n’ A Gazeta, fazendo ligeiríssimas restrições. 
 
O Judas, juntou à minha resenha uma foto do autor e pôs um título, que nada tinha a ver com o texto. Procurei o Zé Mauro para me justificar. Em qualquer lugar onde eu o encontrasse a minha ladainha era a mesma:
 
- Zé, aquilo foi montagem do jornal. O texto lhe elogia. Fiz, e posso até estar errado, pequenas restrições. 
 
José Mauro não respondia nada, fazia-me de ausente e dava-me as costas. De tanto pedir desculpas e ele permanecer indiferente, fui sentindo que eu estava me humilhando demais. Que ele fosse às favas.
 
Um dia, sábado pela manhã, ele entrou na secretaria da União Brasileira de Escritores e me pediu, falando como se não me conhecesse, cópia do regulamento do Concurso Intelectual do Ano. Estava interessado em ser lançado candidato ao maior concurso literário do País e receber o troféu Juca Pato. Como só estávamos nós dois na sala, vi que era a oportunidade para uma conversa franca:
 
- Zé Mauro, podemos agora esclarecer aquilo...
 
Ele nem me deixou terminar:
 
- Você não gostou do livro porque é burro.
 
Aquilo me fundiu a cuca e eu soltei os cachorros:
 
- Quem você pensa que é? O seu romance é ruim mesmo. Sua literatura toda devia ir para o lixo.
 
Falei o diabo. Ele se retirou calado e eu caí na cadeira, arrependido do estouro. Fazer o quê? O salseiro estava feito.
 
Poucas semanas depois, estou eu tomando um cafezinho num bar, à noite, a dois quarteirões do Cine Ipiranga, todo iluminado, um mundo de gente. Pré-estreia do filme, parece-me que Rua Descalça, baseado no livro do Zé Mauro, do mesmo nome. Lembro-me bem que garoava um pouco. E senti que alguém me tocava o ombro. Viro-me. Ali estava o Zé, me convidando: 
 
- Vamos assistir o filme. 
 
Fizemos as pazes. Mas, vez ou outra, tínhamos um pega-rabo, porque ele, embora o coração enorme, feria as pessoas, naquela voz calma, quase tímida. 
 
Conheceu o Érico Veríssimo na minha frente, no auditório da entidade, quando Érico lá compareceu para falar de O Senhor Embaixador, seu romance recém-lançado. Como José Mauro ia a Porto Alegre para mais uma das suas inúmeras noites de autógrafos, o Érico pediu-lhe para visitá-lo. 
 
Pois na volta ele me contou: 
 
- Veja você. Telefonei para ele e ele marcou hora, porque tinha de fazer repouso devido ao infarte que sofrera. Quem ele pensa que é? Marcar hora para mim?
 
Espírito meio aventureiro, foi tudo na vida: garçom, escafandrista, boxer, artista plástico, artista de cinema, modelo da Escola Belas Artes, no Rio, compositor, viveu metido longos anos nas selvas do Brasil Central, tema que aproveitou em alguns de seus livros...
 
Todas as quintas-feiras, às 17 horas, procurava-me na UBE para tomarmos chá com torradas no Bar e Restaurante Restauradores, em frente. Às vezes, conforme os presentes, fazia-se uma roda grande. 
 
Não parecia, mas era forrado de uma boa bagagem literária e de cultura geral. Acompanhava de perto o que se fazia nas letras e aparecia na praça. Conhecia música erudita e popular e era excelente artista plástico, com várias exposições individuais.
 
Extremamente simples, nunca o vi de paletó. Quando necessário apresentar-se mais socialmente, usava um blusão. Não dava muita bola ao dinheiro que ganhava. Sustentava, do próprio bolso, os onze filhos do seu motorista. Emotivo. As lágrimas vinham-lhe logo aos olhos por qualquer quadro de miséria que visse. Da mesma forma, estava sempre pronto com o seu estilete para ferir. O diabo todo era o seu narcisismo exacerbado. Alto, tipo elegante, enxuto, olhava sempre para a gente com um certo ar de resguardo ou ironia. 
 
Deu-me o original do seu primeiro trabalho de ficção, um conto, inédito, e um belo quadro a óleo (paisagem de beira de rio) de sua autoria, exibido numa de suas exposições. 
 
Presenteou-me com alguns álbuns duplos de Orlando Silva e Bing Crosby, porque sabia que eu os admirava. E me deu ainda os originais do seu romance Rua Descalça, a primeira versão datilografada. 
 
Operado de safenas, sua saúde debilitou-se, muito embora há anos não mais bebesse ou fumasse. 
 
Queixava-se da oscilação constante da sua pressão arterial. Numa dessas, conversando na sua casa, onde morava sozinho, sentiu-se mal. Demorou-se muito para socorrê-lo. Vítima de um derrame cerebral, quase morre. Mas, praticamente morreu em vida, ou seja, transformou-se em vivo morto. 
 
Fui vê-lo, juntamente com a sua queridíssima amiga, escritora Mariazinha Congílio. Ele queria um grande bem à Mariazinha. Fui com ele mais de uma vez ao apartamento dela ouvir música.
 
Mariazinha ficou ao seu lado desde o acidente vascular. E quando fomos visitá-lo, ela lhe levou rosas amarelas.
 
- Ele gosta muito de rosas amarelas, Caio.
 
Lá estava ele na cama, praticamente embrulhado em lençóis, o tubo no nariz que lhe auxiliava a respiração. Mariazinha procurou se comunicar com ele:
 
- José Mauro, se estiver me reconhecendo feche duas vezes os olhos. 
 
Ele obedeceu. Não falava. Emitia um sopro de voz, que o auxiliar de cabeceira compreendia praticamente encostando o ouvido aos seus lábios. Não mexia um dedo. 
 
Retirei-me e esperei lá fora. Aquele quadro me traumatizou pelo resto da vida. Tenho certeza de que José Mauro de Vasconcelos, se tivesse condições físicas de acabar com aquilo, teria feito num minuto. O que sofreu aquela criatura, meu Deus, vendo tudo, ouvindo, compreendendo, e sem condições de fazer um único gesto... Logo ele, que, além de escritor, levou uma vida meio aventurosa, de temperamento complicado. O que deve ter sofrido esse homem nos vários meses que passou naquele estado, sem nenhuma melhora? Nascido no Rio em 1920, passou a infância em Natal e depois multiplicou-se em vários personagens. Nem à família, que morava no Rio, dava bola. 
 
Eu não quis mais vê-lo. Soube da sua morte na Fazenda Pau Caído, dos meus ancestrais, no interior do Ceará, em férias. Contava sessenta e quatro anos e ninguém lhe daria cinquenta. 
 
Olho as primeiras páginas do seu último romance - Kuriala, Capitão e Carajá. E aqui está o meu nome impresso, que ele incluiu entre outros, num generoso oferecimento. 
 
 
Caio Porfirio,  escritor,  crítico literário, secretário administrativo da União Brasileira de Escritores, ganhador do Prêmio Jabuti

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