Carta dois

Por: Camilla Alvim

Bom dia.
 
Há um tempo escrevi uma carta para o Nossas Letras e depois sumi, por gentileza desculpem-me por isso. Às vezes a vida devora a gente, não é? Hoje retorno com essa carta que elaborei no caminho de volta da escola do meu filho até minha casa. 
 
E seus filhos já estão na escola?  
 
Estava pensando sobre as “coisas” da vida, não contem para ninguém o que eu relato nesta carta tão pessoal.
 
Outro dia fui visitar uma escola e falar sobre meus textos com os alunos, então levei minhas canetas de escrever e as usei para autografar em pequenos cartões que fizeram justamente para essa finalidade. Um menino ficou encantado com as tais canetas e perguntou incontáveis vezes onde eu as tinha comprado e disse que queria pedi-las ao Papai Noel. 
 
O que você teria feito naquele momento onde era tão fundamental lhe dar a caneta, mas com uma fila de mais de cem crianças?
 
No ouvido dele eu sussurrei: “Não mostra para ninguém”. Dei-lhe rapidamente o presente enrolado no cartão meio que por baixo da mesa. Quem é pai, mãe, professor, ou entende um mínimo sobre crianças, sabe bem o motivo de eu ter feito essa orientação e de ser a mais ágil possível. 
 
Ele segurou com as duas mãozinhas pequenas a caneta, como se ela fosse a maior riqueza do mundo. Vou levar essa imagem na minha cabeça para sempre e hoje escrevo essa carta ainda presa nesta reflexão: o que dá valor às coisas? No caso a minha caneta era de cachorrinho e foi isso que lhe chamou a atenção, eu acho. Só depois, bem depois, o fato de ser minha o fez ser cumplice e esconder, com aquela carinha, o presente. É mesmo uma pena que eu não seja capaz de desenhar o rostinho meio avermelhado e os olhos verdes brilhando.
 
O que faz com que a gente surte ao ver um tênis usado do Cazuza em exposição ou pessoas milionárias disputarem aos zeros - inumeráveis e à direta- os objetos de uso pessoal de cantores e artistas em geral? Após a morte de uma pessoa, o que nos faz entrar no guarda-roupa do ente tão querido para sentir o cheiro que vai apagando-se na memória? O que nos faz dar valor a algo que já foi de alguém?
 
Estive presa em diversas escritas e finalmente me rendi nesta carta para dividir minha inquietação com você. Nada nos dá valor, é o oposto. Nós é que determinamos valores pessoais em tudo, coisas são unicamente coisas, mas qual é momento em que deixam de ser? 
 
Quando conseguimos nos deixar nas “coisas”. Lembrei-me de um dia em que sai e ao retornar meu filho havia acordado e deixado a cama dele para dormir na minha até que eu chegasse, além do fato de ser um filho controlador dos meus horários ele me disse apenas que sentiu saudade. 
 
Perceba, eu não falo mais dos objetos de artistas, famosos ou outros. Estou falando dos seus objetos, de quando suas coisas te representam mediante sua ausência. Como aquela cadeira no jantar que nuncamais ninguém ocupou...Entende?
 
Um pedaço do que somos impregna cada coisa que utilizamos, isso não é uma figuração poética e sim uma constatação de fatos. Deixamos em tudo o que temos um pouco de nós mesmos, nossa energia, nossos cuidados e até nossa matéria celular descamada do tecido que nos reveste, a pele. Fazemos sempre outras histórias invisíveis na vida que vai girando apesar de nossa total ignorância sobre isso. Já não estou falando de artistas, mas de você, dos seus filhos, de mim mesma e das pessoas que admiramos ou pelas quais temos repulsa. 
 
Sobre o consumismo em excesso, senti piedade de quem é capaz de usar uma roupa uma única vez por motivos tão bobos, privando as pessoas que a rodeiam da lembrança de tal peça nela vestida mais vezes do que o simples fato de tê-la, privando-se de associar-se a tal peça por motivos de afeto e conforto.
 
Certo, tem um lado poeta meu que diz que a roupa esquecida sentiu vontade de chorar por não passear nas ruas, aí eu saio do contexto e me entristeço pensando no caminho não caminhado dos sapatos e vou tentar não fugir da lógica desta carta. Tento não fazer poesia sobre a constatação de que o que temos tem sempre um pouco de quem somos. Prometo esforço para não fazer poesia, mas a tristeza de tudo o que é esquecido no desamparo do mundo é uma tentação ao lírico e também diz muito sobre mim e meus olhares.
 
Só estou lhe escrevendo para pensar junto com você no valor que é deixar um pouco de si em tudo que te cerca no mundo. Nunca nada do mundo vai dar-lhe valor, nem mesmo luvas de diamante, nem carros caros, nem casas imensas, o mundo não faz você, é você, quem faz o mundo.
 
Qual o valor que você está impregnando em tudo que é seu?
 
Se for uma pessoa esperta já notou que não falo mais das roupas, nem das canetas ou dos sapatos, que já não falo sobre o resto do perfume ou sobre nada tão palpável e simples. Agora eu estou falando sobre gente, sobre sabedoria, sobre o que deixamos de quem somos no tempo e sobre outras tantas coisas. Sobre a vida, e isso é um papo tão mais longo que acho melhor parar e deixar que reflita sozinho.
 
Eu vou passar um café e guardar as coisas do almoço enquanto você fica com os seus pensamentos.
 
Beijos e abraços.
 
 
Camila Alvim, autora de textos para crianças

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