Entendeu agora?

Por: Chiachiri Filho

O conceito de classe dominante, definido pelo marxismo, é amplo, geral e irrestrito. Aplica-se à economia política, à sociedade, à cultura.  Existe, por exemplo, um linguajar da “classe dominante” e este linguajar nem sempre é entendido pelas camadas mais humildes da sociedade. E, dentro do linguajar da “classe dominante”,  há uma subdivisão: o linguajar médico. Esse chega a ser obscuro, cabalístico, ininteligível e apocalíptico .
 
Assim, a forma mais usual que os médicos se utilizam para comunicar  o falecimento de uma pessoa é o tradicional “veio a óbito”.
 
Uma senhora foi visitar o seu marido que estava internado num hospital.  Antes que ela chegasse ao quarto, uma enfermeira chamou-a numa sala dizendo que o médico precisava falar-lhe.  O médico chegou e, com toda a solenidade possível, disse-lhe:
 
- Seu marido veio a óbito.
 
A mulher, com toda a sua ingenuidade e sem demonstrar nenhuma surpresa ou dor, falou:
 
- Sei, sei! E quando ele vai ter alta, doutor?”
 
O médico, percebendo que  a mulher não tinha entendido nada, foi bem claro:
 
- O seu marido morreu, minha senhora, morreu!
 
Foi aí  que a esposa, desesperada, caiu numa cadeira e desmaiou.
 
Num outro caso, duas senhoras conversavam enquanto esperavam a vez de entrarem no consultório. A primeira  da fila resmungava:
 
- Eu vou nesse médico porque não tem outro para consultar. Ele é muito bruto e mal educado.”
 
A outra senhora tranquilizou-a:
 
-Vai com fé e  com calma que tudo dará certo.”
 
 Ao sair da consulta, a amiga perguntou:
 
- Deu tudo certo?
 
- Deu. Ele até entregou-me essa amostra grátis  para usar. Só que eu não  sei como usar.”
 
- Então volte lá e pergunte.
 
- Será? Esse médico é muito grosso.
 
- Não tenha receio. Vá.
 
Criando coragem, a senhora conseguiu uma brecha e entrou de novo no consultório.
 
Saiu em prantos e foi logo dizendo à sua amiga:
 
- Eu não lhe disse que esse médico é um bruto, um cavalo?
 
- O que foi que ele lhe disse para tanto choro?
 
- Ele disse para que eu enfiasse esse supositório naquele lugar.
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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