O enterro do coronel

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Coronel Totonho afastou-se dos dezoito filhos, das famílias e de suas fazendas de terras valiosas que tantos júbilos e lucros lhe renderam, quando centenário e adoecido mudou-se para cidade próxima, onde teria melhor atendimento. Homem nobre, seu valor e retidão são comentados mais de sessenta anos após sua morte cujo anúncio comoveu toda a região. O menino, hoje saudoso de sua infância, relembra a viagem que fizeram num caminhão, com bancos de madeira improvisados, para o enterro do coronel. Por mais de doze horas, o veículo transitou, lentamente, pelas estradas precárias, em meio à poeira que se adensava, conforme iam passando. Entre um sacolejo e outro, seu pai ia lhe desvendando novos horizontes: casas enormes, sedes das fazendas que surgiam à beira da estrada, apressados riachos e córregos de nomes estranhos, árvores altas e frondosas de madeiras nobres que ainda não tinham gemido, sob os golpes do machado impiedoso do desmatador. Quando, no horizonte, o sol sentia-se enfraquecido pela força da noite que se revelava, encontravam-se próximos à Ponte Surubim, sobre o Rio Grande, hoje encoberta pelas águas, contidas por uma barragem. Os largos pilares de tijolos e suportes de madeira, entre um e outro, não davam a segurança necessária, sendo preciso que as pessoas a atravessassem a pé, sentindo o balanço e o ruído das tábuas que forravam seu pavimento, pouco protegidos pelas vazadas defensas de madeira que a ladeavam. Ao avistar, ao longe, as luzinhas esmorecidas da cidade que se avizinhava não conseguia distinguir se era alegria ou tristeza o seu sentimento naquele instante. Tomado por forte emoção, percebeu que havia muita coisa a ser descoberta.
 
Quando chegaram à cidade tudo lhe era surpreendente. Cansado, eufórico com tanta novidade, dormiu na casa do coronel, junto com outras crianças, num quarto enorme cuja porta de peroba rosa tinha quase a altura de dois homens. Nunca vira móveis, louças, pratas, tecidos como aqueles, mas o que fixou na memória foi o respeito e pesar das pessoas que se aproximavam do ataúde, inteiramente coberto de tristes flores. Lembranças das lágrimas sinceras, em profusão, ainda vivem nos escaninhos de sua mente. Centenas de pessoas acompanharam o enterro ao som de piedosas rezas e ladainhas.
 
O menino não imaginava que a finalização do inventário demoraria dez anos, tal era o volume de bens e o número de herdeiros deixados pelo coronel.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 
 

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