Ler o mundo

Por: Maria Luiza Salomão

Aos professores e alunos da 
E.E. Dante Guedini Jr., com carinho.
 
 
Fui convidada pela Juliana, da Escola Dante Guedini, que faz um belo trabalho, na Sala de Leituras, para dois encontros com uma escritora (eu) e os alunos, basicamente das 7ª e 8ª séries. Pedi que os alunos me ajudassem com perguntas e elas foram ótimas: qual o meu sonho; como começou a minha paixão por ler; qual a primeira dificuldade minha ao escrever; como lido com o tema e com o título do que escrevo (escrevo o que realmente sinto e penso?); quais as minhas referências como escritora-leitora. Perguntas que me ajudaram a conhecê-los. 
 
Lembrei-me, antes de encontrá-los, da minha experiência como alfabetizadora. Descobri maravilhas sobre o ato de ler, tantos anos atrás. Cada um aprende a ler segundo uma experiência íntima, particular. Vi uma criança aprender, pelo som da letra, o método fonético desenvolvido (e criticado) por Maria Montessori. Na época era popular o método global, de Paulo Freire, na alfabetização dos adultos (o famoso MOBRAL, extinto pela ditadura militar, considerado subversivo). Muitas crianças eu vi aprenderem a ler com frases e até mesmo textos criados, oralmente, por elas, seguindo Freire. 
 
Mas também vi criança aprendendo pelo antiquado método silábico, usado nas cartilhas. As cartilhas eram criticadas, nos idos dos anos 70, como método arcaico de alfabetização, que impedia a criatividade da criança. Mas vi criança se alfabetizar com a junção de letras: “b” + “a” = “ba”, considerado um péssimo método. 
 
Aprendi, como alfabetizadora, que a gente aprende a ler, de maneira pessoal, da mesma maneira como se bebe, ou se come, ou se cheira e se toca o mundo ao redor. Há os detalhistas que, enquanto não veem todos os detalhes, não conseguem apreender a experiência e dar nome a ela. Há o que precisa de uma visão panorâmica, para situar o detalhe senão se perde, sem perceber o contexto. 
 
Há pessoas que necessitam viver sensações: a experiência tem de ser concreta, sensorial, para conseguirem registrar experiência: são incapazes de abstrair. Em geral, crianças pequenas precisam de experiências sensoriais, antes de alcançar a abstração, e apreendem as experiências por “tentativa e erro”. 
 
Outros apreendem um padrão e, através dele, encontram um sentido na experiência, organizando a sua percepção e, finalmente, alcançam o aprendizado. 
 
Alfabetizar revela os diferentes tipos, humanos, de inteligência. Ler cria o futuro escritor e suas diferentes escritas também. É milagroso, para o alfabetizador, ver pipocar, um aqui, outro acolá, o leitor e o escritor futuros da nossa língua portuguesa. Quando nada parece estar a acontecer, silenciosa metamorfose vai ocorrendo. Alguém cego e surdo para os sinais crípticos, misteriosos, se torna, finalmente, alguém letrado e culto: cidadão da própria língua. 
 
Obrigada, turma da E.E. Dante Guedini pela conversa sobre leitura/escritura: meu mundinho se alfabetizou mais, em leitura e escrita, com a experiência de nosso encontro. Alfabetização é um processo infinito, quando queremos ler o mundo, mais do que ler livros.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 
 

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