Encasulamento

Por: Eny Miranda

Morreu o poeta Manoel de Barros”, noticiou a mídia.
 
A causa mortis - disseram os médicos - foi falência múltipla de órgãos.
 
Pois eu digo que Manoel de Barros não morreu: deu-se a encasulamento para, mergulhado na terra, viver transformações crepusculares - vespertinas e matutinas - de corpo, verbo e silêncio; no ventre da madeira úmida, desfazer-se e refazer-se em elementos originais, como terra, ar e água, e depois, das entranhas do chão, rebrotar em “abundância de ser” (feliz). Afinal, para que tanto órgão a subsistir sempre da mesma forma? Bom mesmo é metamorfosear, moda lagarta que vira borboleta ou pedra que se faz pássaro poesia. O Poeta se livra de velhas denotações para se reconstruir em novocábulos - poiesis em seu mais puro sentido primitivo: fazer, criar; e em seu uso platônico: causa que converte qualquer coisa considerada não-ser em ser; e em sua acepção atual: poesia. Porque poesia é isto: resultado de criação e também de transformação; conversão do ser no não-ser e novamente no ser. Fazendo poesia, o poeta vira terra, pedra, água, ar, que não falam “palavras fatigadas de informar”, e “quem se aproxima das origens se renova” e se faz silêncio de brotação, verbo em estado dilucular, este, que nada profere e tudo diz de renascenças. 
 
Manoel de Barros morreu? Que nada! Se ele continua palavras amanhecendo aqui, e lá, onde está, segue desarrumando a linguagem, compondo silêncios, sendo lido pelas pedras, alicerçando casas sobre orvalhos, carregando água na peneira, ouvindo e entendendo o sotaque das águas, alcançando o sotaque das origens: entrando em estado de árvore, de pedra, de terra, de bicho; sendo Outros, e escolhendo, dentre esses Outros, de que maneira prefere continuar invencionando, novocabulando: moda córrego, peixe, ave, árvore, lagarto, borboleta, asa de passarinho, passarinho inteiro...
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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