Martim Pescador

Por: Paulo Rubens Gimenes

“Martim Pescador” - assim era conhecido por todos lá em Vila Longe, mais por sua prosódia que por seu desempenho na arte de dominar vara e anzol.
 
Desde pequeno era assim. Não queria os peixes comuns, que todos os outros  pescavam no Sapucaí ou nos açudes da redondeza.
 
Feito um “Fernão Capelo” caipira, ansiava peixes grandes, sonhava enormes pescarias; represar o Ribeirão das Velhas e fazer uma enorme represa, farta de dourados, pacus e cacharas; fazer sociedade com um navio pesqueiro japonês e lançar-se em uma grande pescaria em alto mar.
 
Tanto sonhou pesca grande que jamais concluiu uma pesca pequena, um lambari sequer.
 
E o povo, cansado de escutar seus grandes planos de pescaria, jogou-o no ‘covo’ dos loroteiros, na “tarrafa” dos mentirosos; ninguém mais dava crédito à sua prosa, a seus projetos.
 
Um dia Martim sumiu. Diziam que tinha se casado lá no Arraial Jocoso com uma caboclinha humilde e já tinha pra mais de cinco “bacuris”.
 
Mas logo, por carta, mandara notícias. Tinha se casado sim, mas era com uma bela sereia que conhecera lá no desemboco do rio com o mar, morava num belo castelo de arrecifes e estrelas do mar onde brincava com seus filhos, cinco dourados golfinhos que viviam a encantar marujos em solitárias embarcações.
 
Encerra a carta, externando saudades da mãe e parafraseando Fernando Pessoa: “Sonhar é preciso, pescar não é preciso.” E assina:
 
Martim Sonhador.
 
 
Paulo Rubens Gimenes, Publicitário e ex-conselheiro do Comércio da Franca

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