Azaléia

Por: Janaina Leão

Sou sua preguiça, sua ira, sua falta de sorte, sou todos os vestibulares em que você não foi aprovado.
 
Estou no contorno da sua sombra, na sua boca todas as vezes que você diz: a culpa foi sua!
 
Sou a poeira embaixo do seu tapete, a cicatriz que você esconde, a foto que fica no fundo na caixa de lembranças – inquieta.
 
Sou a imagem que nunca desaparece, estou no origami que você não deu conta de dobrar, e naquele tombo no meio da rua, causando constrangimentos.
 
Encontre-me no ocre das paredes descascadas, nas rachaduras quando estática, você perderá minutos em transes descompensatórios. 
 
Estou no último cigarro que molha, na sede sem saciedade, na terra infértil.
 
Sou o porre adoecido, o perfume de alguém que passa e te lembra o lado bom.
 
Estou na realidade quando as idealizações foram devoradas pela enorme boca do tempo.
 
Habito o arrependimento, a lâmpada queimada, a escada onde faltam degraus, a cortina que fechou.
 
Sou o bilhete premiado que você usou para limpar a sujeira em cima da cama, e acabou perdendo o prêmio. 
 
Estou no que não tem volta.
 
 
Janaina Leão, psicóloga
 

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