A menina e as bolinhas de Natal

Por: Maria Rita Liporoni Toledo

Leninha admirava seu pai, não porque ele lhe dera aquelas bolinhas de Natal de vidro, coloridas, faiscantes que vinham acomodadas em caixas de papelão com divisórias, pois eram frágeis e quebravam–se com incrível facilidade, mas porque sentia- se acolhida, protegida e valorizada. Moravam na sua casa além da mãe, a avó e um tio ainda jovem. De São Paulo, onde fora trabalhar por uma temporada, o pai a presenteara com revistas, livros de história, folhetos, flâmulas, miniaturas, enfim, novidades que não existiam em sua cidade. Para ornamentar sua árvore de Natal, montada com um galho de cipreste, fixado entre pedras e areia, numa lata grande, coberta com papel de seda, ele lhe trouxera três caixas com uma dúzia em cada. A menina não cansava de admirá-las: azuis, verdes, vermelhas, amarelas, pink, que cor maravilhosa, pensava ela. Ao enfeitar sua árvore, foi distribuindo-as nos verdes e cheirosos galhinhos do cipreste, entremeando, nas argolinhas que elas possuíam, fitinhas, também coloridas, dispondo da forma mais esteticamente que conseguia, amarrando-as, bem firmemente, com laços caprichosos. Elas brilhavam intensamente e aquele brilho aquecia seu coração pequenino.  A alegria e a felicidade de ver sua árvore pronta apagava qualquer senão. Além do mais, era uma criança livre, viva, de riso solto, como são as crianças.
 
Adulta, ela só se lembra do tio soltando os lacinhos, suspendendo as bolinhas até certa altura e deixando-as cair no chão, onde elas iam se espatifando, uma a uma. Os caquinhos multicoloridos espalhavam-se como um tapete. Ele, como um supliciador sem piedade, ameaçava quebrar todas se ela não admitisse a culpa por alguma peraltice que, talvez, por mecanismo de defesa encontra-se, até hoje, nos subterrâneos de sua alma. Apesar de se esforçar não consegue lembrar-se do motivo que, infantilmente, provocara tamanha maldade. Recorda-se muito bem de que assolada pela dor, conseguiu, entre o choro convulsivo e os gritos estridentes, que sua mãe a ouvisse e a livrasse daquele sofrimento. Salvaram-se algumas bolinhas que, resistentes, continuaram embelezando sua árvore. Levemente espelhadas iam se refletindo umas nas outras dando a impressão de serem muitas. O efeito superação deu o tom do Natal de Leninha.
 
 
Maria Rita Liporoni Toledo, professora
 

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