“O que é ler, para você?” (em uma palavra)

Por: Maria Luiza Salomão

Ana Beatriz, da 7ª série, me fez essa pergunta em uma conversa no E. E. Dante Guedini. Respondi rapidamente: ler é ...aventura. 
 
Ler é viver - intensa e extensamente - outras dimensões. Espacial, temporal, psiquicamente: o livro me leva a lugares reais (mesmo que imaginários); em tempo real (esticado a partir do “tempo-salame” diário, com suas fatias de horas, minutos e segundos contados em relógio); faz com que eu conheça pessoas intimamente (o leitor se torna Gepeto e dá vida à criatura de papel), e me faz aprender a reconhecer aspectos das pessoas de carne-e-osso com quem convivo, através dos personagens criados. 
 
O livro: quietinho, no lugar em que o coloquei, esperando, sem reclamar. Esquecido: as folhas amareladas, manchas aqui ou ali, a capa meio que estragada, folhas comidas pelas traças: buraquinhos-túneis nas páginas.
 
O livro: (a)guardando viver em mim. Não gosto de terminar de ler um livro, quando gosto muito. Queria tê-lo lido antes. Mas como sabê-lo, antes de amadurecer para ele? 
 
A ligação extrassensorial, que a leitura promove, me faz demandar tempo e reflexão, decantação. Afinal, um livro não é igual a outro, embora os sinais usados em todos os livros sejam os mesmos: letrinhas negras em páginas brancas. A mágica é que é difícil de narrar. O leitor precisa ser parceiro do autor. 
 
Guardei meus livros em armários temáticos. Entre os quartos de dormir, estante rústica, madeira patinada de demolição: livros de filosofia. Quarto de hóspedes: literatura mundial e nacional, lindas coleções, de capa dura e papel refinado: somente obras-primas (no armário embutido). Na sala de estar à vista: livros grandes que são grandes livros. Meus autores prediletos, e os críticos literários que me ajudaram a aprofundá-los: armário embutido no quarto do computador, pertinho de mim. Livros sobre arte e de poetas nacionais e estrangeiros: armário de madeira escura torneada estilo anos 50, porta de correr de vidro, parecido (por fora) com um guarda-roupa dos meus pais. 
 
Uma prateleira clean (de 40 anos) que carrego desde que saí de São Paulo), madeira de lei, seis prateleiras grossas, firmes, fortes, mostra sem portinholas os livros em trânsito (que estou estudando em momento específico). Os muitos dicionários (paixão antiga) sempre à mão, no quarto do computador. 
 
No consultório, autores francanos e livros de Psicanálise. 
 
Novos companheiros chegam: aonde guardá-los? Amo visitá-los, baldeá-los de estante para estante, tocá-los, folheá-los, promover amizade com e entre eles. Algum se apresenta, exato, quando relações misteriosas se entrelaçam em mim, aportando conexões assombrosas, impensadas até então.
 
Sinto que também - os livros me leem; parecem acenar para mim, às vezes, convidativos. E, para você, o que é ler, em uma palavra? 
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)

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