A bruxa e eu

Por: Eny Miranda

É muito tarde. Dormem lá fora o Sol, a Lua, o céu, as estrelas... Dormem o dia e a noite. Insone, assisto ao sono universal, antes de abrir algumas páginas de Cecília Meireles. Aos poucos, um cheiro de chão batido, poeira e sal vai tomando conta do ar, e um som lamurioso começa a se esgueirar pelos vãos, entre sombras e paredes. É o vento, viajante de milhas e milhas, chegando cansado, queixoso, trazendo odores de além-tempo e além-mar, de vidas e praias distantes, anunciando-se nas frestas, ecoando vozes longínquas... 
 
De repente, esse vento se inquieta, ganha força, eleva o tom, retumba altissonante, estremecendo portas e janelas. E não para, não se cala. Com seus dedos e mãos e braços, invisíveis e infatigáveis, vai empurrando, envolvendo, arrancando presenças e histórias, insurgente, ruinoso, ruidoso; despertando a noite, as almas, a vida... na morte: barulho de mil objetos sendo arrastados na rua deserta; madeiras rangendo, telhados ameaçando voar, uma tabuleta com a palavra “aluga-se”, na porta do sobradinho em frente de casa, batendo, batendo, sem pausa... 
 
E então, a chuva.
 
Cai o aguaceiro, embarcado no vento - asas enormes ruflando na escuridão, diluindo o pó, a terra, o sal. Mil líquidas chibatas saraivando portas e janelas, açoitando a noite, penetrando gretas, retalhando pétalas com a força do grito que estilhaça cristais; arrancando folhas, castigando e vergando troncos que tentam resistir à sua sanha. Pesadelo violentando sonhos. E voam, no meio da escuridão, restos da luta, despojos lançados ao chão, encharcados.
 
No quarto, subitamente, uma bruxa enorme aparece, como se trazida não pelo fogo, como a asteca borboleta de obsidiana, mas pela noite ou pela água da chuva. De onde, afinal, teria vindo aquele ser? Agitada, exercita voos rasantes sobre minha cabeça. É o próprio vento com suas asas noturnas penetrando o meu quarto, devassando a minha intimidade. Mas vento que não canta, não se queixa, não vocifera, e é perfeitamente visível. Percorre curtos espaços, e tem vida efêmera. Não açoita, não submete, não mata. Vento inofensivo. 
 
Vejo que o pequeno abajur está aceso, pronto a iluminar as páginas que embalariam meu sono. Deduzo que, sendo borboleta noturna, ela tenha vindo atraída por ele. Levanto-me, já esquecida do que ocorre lá fora. Trava-se aqui, agora, outra batalha, pequena batalha que, espero, não deixará mortos nem feridos. À negra mariposa, não a temo, mas não a quero aqui, a me perturbar a excitante observação da tempestade, ou a leitura, ou o sono. 
 
Acendo a luz da sala contígua, para ver se a visitante vai embora. Mas ela prefere a minha companhia. E prossegue em seu giro frenético, enlouquecida, ou aflita, à espera de alguma coisa grave; vítima de uma premonição, algo imperioso, que deseja - mais do que isso, necessita - partilhar comigo, o que acaba por me afligir também. Recorro agora à lâmpada do próprio quarto. Aí, acontece: ela voa desesperadamente em torno daquele brilho amarelado, até cair. E some de minha vista.
 
Apago a luz e volto à cama.
 
Então percebo que lá fora o vento se foi. A chuva cai mansa, recriando, com paciência e doçura, coloridos e viçosos tecidos vivos.
 
Seria esta mariposa um arauto? Um ser não das trevas, mas da luz? Quem sabe, a borboleta daquele conto irlandês, Corte de Étain, nascida da água e mensageira de bem-aventuranças?
 
Fecho o livro e apago o pequeno abajur.
 
Finalmente, dormimos ambas tranquilas - a bruxa e eu.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 

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