Vitrines de Natal

Por: Chiachiri Filho

Meu pai era um homem nervoso, afobado, impaciente e objetivo.  Minha mãe era calma, sossegada e indecisa.  Por ocasião das festas natalinas, ela tinha dois grandes prazeres: visitar todos os presépios da cidade e as vitrines de todas as lojas.
 
Eu era o encarregado de acompanhá-la em sua maratona consumista. Meu pai deixava-nos na Praça 9 de Julho e ia para Praça Barão tomar café e conversar com os amigos. Esperava-nos, depois, na Praça Nossa Senhora da Conceição, na vitrine da Casa Higino Caleiro. Começávamos olhando a exposição da Casa Única. Na verdade, eu procurava o degrau de entrada das lojas e ali sentava-me à espera de que minha mãe satisfizesse a sua curiosidade.  Subíamos pela Rua da Estação ( Voluntários da Franca ) e minha mãe, para meu sofrimento, ia entrando em todos os estabelecimentos comerciais iluminados e decorados com motivos natalinos. Passávamos pela Triunfal, Caprichosa, Pernambucanas, Cinderela. Na Rua do Comércio havia a única loja que me interessava e pela qual minha mãe visitava com uma  certa rapidez: era a Casa Betarelo. Na Casa Betarelo estavam expostos os presentes mais lindos sonhados e desejados por todas as crianças. Eram brinquedos de todas  as espécies:caminhões de  bombeiros, carrinhos de  corda, revólveres de espoleta, tanques de guerra, aviõezinhos e muitos  outros objetos que atiçavam o nosso desejo.  Ao lado da Casa Betarelo, havia a aristocrática  joalheria de Caio Silva.  Passando rapidamente pela Ótica Melani, minha mãe dirigia-se novamente para Rua da Estação  e, seguindo o seu lado esquerdo, visitava a Esmeralda, A Cristaleira, a Elegante.  Atravessando a rua, ia apreciar as vitrines   do Paraíso da Franca, loja especializada em calçados. Subia a rua olhando as novidades expostas pela  Casa Higino Caleiro que ocupava quase todo um quarteirão.
 
Terminávamos o passeio ( para mim, uma via crucis ) na esquina da Rua da Estação com a Monsenhor Rosa onde meu pai já estava nos esperando com um saboroso saquinho de pipoca.
 
Depois, viriam as compras e, em virtude  do temperamento indeciso de minha mãe, eu sabia bem o que estava por vir.  Criança sofre, prezado leitor. Porém, como eu gostaria de estar sofrendo ao lado do meu pai e minha mãe! Que saudade, que doce saudade de antigos e inesquecíveis Natais!
 
 
Chiachiri Filho, historiador, criador, diretor por oito anos do Arquivo Municipal e membro da Academia Francana de Letras
 
 

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