É Natal de novo!

Por: José Borges da Silva

Já não se houve mais, com alegria e entusiasmo, a proclamação sublime: é Natal!  É mais comum ouvirmos: É Natal de Novo, cara! Tornou-se corriqueiro dizer que o tempo anda passando depressa demais. Há quem diga que nós é que corremos muito e que por isso parece que o tempo passa mais rápido. Há também os que dizem que na passagem do milênio, há pouco mais de uma década, houve uma sutil alteração no tempo cronológico da Terra, que foi reajustado de modo que um dia atual não tem mais do que 16 horas do padrão antigo... E, por falta de prova em contrário, ambas as teorias subsistem, tranquilas, incontestadas. Mas, no fundo, o que incomoda é que parece estar havendo algo como que um esquecimento geral do momento presente e, isso sim, parece decorrer das intensas atividades humanas de hoje em dia. E com isso estamos ficando sem passado! Por exemplo, ninguém lembra as atividades de um ano atrás. Ou as de uma semana atrás. Nem mesmo as de ontem. Dá até pra lembrar algum fato marcante, mas tentar situá-lo no tempo não é fácil. E quando conseguimos nos surpreendemos: mas já passou todo esse tempo! É convencional passarmos correndo pelo presente para cuidar do futuro, salvo casos raros de algumas tribos distantes. E assim, o tempo voa. O Natal vem chegando de novo e a correria se torna maior ainda. Mas não é só isso. Estamos sempre nos preparando para o futuro! Trabalhando mais e mais, fazendo cursos, levando os filhos à escola, tudo para que tenhamos um futuro melhor! Raramente nos lembramos de que estamos aqui agora, trabalhando ou levando filhos à escola, convivendo com amigos, com os nossos pais... Não se vive bem o presente nas coisas cotidianas porque urge cuidar do amanhã! Temos pouco tempo para apreciar a arrumação da casa, para nos sentar à varanda, para sentir o momento. Pode ser impressão, mas parece que nos habituamos com a vida transcorrendo como em um filme estrangeiro, em que dedicamos toda nossa atenção às legendas, para não nos escapar o enredo e deixamos de apreciar a paisagem à volta, com todos os detalhes que embelezam e tornam a trama interessante. Com isso, o filme se torna um exercício de leitura dinâmica, ou até um treinamento em língua estrangeiro.  E a vida, nesse ritmo, uma corrida contra o tempo. Talvez seja por isso que de vez em quando olhamos para os filhos, moços, com certa nostalgia, com a sensação de que deixamos escapar os melhores momentos da sua infância. E depois, vendo-os irem se distanciando aos poucos, preparando os próprios filhos para o futuro, ficamos desalentados, com a sensação de que a vida é fugidia demais. E, outra vez, deixamos escapar o presente...  Fato é que a vida efetivamente passa no presente... Ou será que não? Será que a vida se constitui de tudo isso ao mesmo tempo?  Passado, presente, futuro, tudo misturado na imaginação? Mas, enfim, o Natal e o Ano Novo vêm aí. Confesso que ando meio cansado dessa corrida para o futuro que, desconfio, não vai tão longe assim... O problema é que viver o presente pelo presente não tem motivação suficiente. No momento ando com palpite de ir à praça apreciar as árvores enfeitadas, ver crianças correndo, mas sem pensar no amanhã. Enfim, ando cansado dessa corrida incessante para o futuro e, por ora, busco descanso provisório no momento presente, sem dúvida, um dos mais belos do ano. Feliz Natal!
 
 
José Borges da Silva , procurador do Estado e membro da Academia Francana de Letras
 

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