Maria-mole

Por: Luiz Cruz de Oliveira

Os amigos vão-se aposentando, vão sumindo.
 
Alguns se enfurnam em quartos, escravizados pelo vício da televisão ou do computador. Outros, aproveitando a gratuidade do transporte coletivo, embarcam em ônibus, atravessam a cidade, vão até o ponto final, retornam ao Terminal Rodoviário, embarcam em outro ônibus, vão conhecer bairros novos e distantes.Viajam para lá e para cá até a hora do almoço. Vão para casa e, depois da boia, dormem até a hora do noticiário e da novela. O repouso é, logicamente, merecido e necessário, pois, afinal, ninguém é de ferro. Encerrado o capítulo da última novela, têm sempre à mão um sonífero entre os muitos comprimidos que ingerem.
 
Apesar de vidas tão agitadas, vez ou outra, a inatividade de um colega esbarra na minha inexplicável pressa, colocamos o papo em dia.
 
Semana passada, casualmente, dei de cara com o amigo Ronan, quando ambos cruzávamos a Praça Barão. Abraçamo-nos, felizes, e logo a conversa descambou para o de sempre: os conhecidos que se foram, as últimas moléstias descobertas. Comentamos velórios, reclamamos dos médicos, das farmácias lotadas, demoramo-nos em nós mesmos.
 
- E aí, Ronan, como está a saúde?
 
O mineirinho não precisa de estímulo. Basta pequeno toque, e ele destrava a língua.
 
- A minha saúde? Está boa, muito boa. Como sempre. Já lhe contei que, de vez em quando, eu mais o Esmeraldo vamos lá pra Fazenda Limeira e capinamos dois dias sem parar? Nós estamos lá, com uma hortinha. A gente planta feijão e mandioca. Você sabe como é, a gente precisa garantir o almoçinho de cada dia.
 
- É mesmo? Que bom. E a cabeça... ainda continua boa?
 
- Boa? Está ótima. Você sabe que sempre tive cabeça muito boa pra tudo, principalmente pra negócio. Minha cabeça é que nem coco, guarda mais coisa que cofre de banco.
 
- Que bom, que bom. Quem passou um mau pedaço foi o nosso amigo Fulano. Teve um piripapo, teve de ser internado.
 
- Não fala! Ele parecia tão bem! O mês que vem eu estive com ele, e ele estava vendendo saúde.
 
Despedimo-nos, vou embora pensando no seu “mês que vem estive com ele”, pensando  na cabeça de coco do meu amigo e nos tempos verbais que tanto trabalho me deram em sala de aula.
 
- Cabeça de coco que nada. Está parecendo mais é cabeça de maria-mole...
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 

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