Nascimentos

Por: Maria Luiza Salomão

Ler também é natal. Quantas vezes, lendo, nascemos e renascemos? 
 
Nasci, um dia, de mãos dadas com a vovó Maria, abismada com as diferenças entre pobres e ricos, incompreensíveis para mim. 
 
Nasci, mais tarde, quando levei a culpa (e punição) de uma travessura organizada pela prima ¶ngela: paguei um pato inteiro, sozinha. 
 
Nasci, sofridamente, quando a turminha de pré-adolescentes francanas me ordenou que eu não paquerasse um menino de Ituverava, minha cidade natal (só poderia paquerar menino de Franca...) (não obedeci) (fui expulsa da “tchurma”).
 
Nasci, meio que sem querer, quando briguei com um professor do IETC (ainda era com um E só) e tive que pesquisar sobre a nossa divergência na biblioteca da Faculdade de História, que virou UNESP, para dar sustento ao meu argumento.
 
Nasci, compassiva, quando vi minha mãe chorar em um natal porque não nos reunimos com a família dela, e ficamos sozinhas, na janela, uma noite infeliz. 
 
Nasci, com gana de nascer, quando saí de casa para estudar na USP; e depois quando fui morar em São Paulo; e quando tive meu primeiro emprego; e quando tive a minha grande paixão não correspondida. 
 
Nasci, feito a deusa Atená saída do cérebro do pai Zeus, quando me tornei “revolucionária”, acreditando que poderia mudar o mundo, desafiando a ditadura militar. 
 
Nasci, apavorada, quando percebi que poderia ser presa e torturada, como sabia de alguns que assim foram e desapareceram. 
 
Nasci, concentradamente, quando morei sozinha em um flat, com apenas cinco grandes passos na largura e cinco outros de comprimento; era uma monja vagarosa a meditar em sua cela. 
 
Nasci velha, quando vi meu pai morrer, uma dor absurdamente indescritível e tive que recriar um mundo sem a sua presença física. 
 
Foi lendo o mundo que tive tantos nascimentos e entendi esta história bíblica, a de comemorar nascimento de um bebê na manjedoura, ano após ano, bebê que cresce, morre e ressuscita bebê que cresce, morre e... 
 
Recentemente, morri quando um projeto querido deixou de ser meu e de outros, deixou de ser “nosso” e virou institucional: um projeto entranhado em mim e que me foi extranhado, alienado. 
 
Nascer e morrer, eu entendo, depois de muitas reviravoltas, são dois lados da mesma moeda: o viver criativo. Minhas mortes não são feitos e efeitos de ódios e rupturas, às vezes os sentimentos são motores para sentidos nascentes em novas claves de Sol. 
 
Renasço sempre ao acreditar que o mundo se desfaz e se refaz em nós e laços, em leituras de mundo. A cruz onde somos pregados, o túmulo em que deixamos partes do que fomos, são pontes de transformação, quando fontes de aprendizado. 
 
Mais um natal 2014. Felizes sentidos nascentes, sarapintados de dores pelo que morreu, para que novos mundos se criem, agora e sempre, por todos os séculos.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

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