Renascimentos inspiradores

Por: Sônia Machiavelli

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Era terça-feira e eu estava imersa na leitura de Eu sou Malala, presente do amigo Duda, quando a televisão me avisou sobre hediondo massacre no Paquistão. 141 pessoas, a maioria crianças e adolescentes, tinham sido assassinadas dentro de uma escola de Peshawar por militantes do Talibã. Com o livro nas mãos e o olhar na tela, fiquei perplexa, pois havia acabado de chegar ao fim de um trecho da biografia de Malala Yousafzai, escrita em parceria com a jornalista inglesa Christina Lamb, onde a jovem descrevia a violência daquela milícia. Cenas parecidas podem ser encontradas nas páginas onde à historia da menina jurada de morte por defender educação para as mulheres, subjaz outra, a do Paquistão, sua origem milenar, a autonomia política recente, a variedade étnica, os muitos idiomas, os conflitos tribais e as leituras preconceituosas do Alcorão. Saber dos motivos que levaram Malala à beira da morte remete à consciência de que conhecer a região é essencial para entender as atrocidades que continuam sendo cometidas “em nome do Islã”. 
 
Malala inicia seu relato a partir de Birminghan, cidade onde se encontra desde que, com graves ferimentos na cabeça, foi levada para um hospital inglês por organismos internacionais. Perdeu parte da audição e teve lesados nervos da face, o que lhe prejudicou a expressão. Ao visitá-la pela primeira vez no hospital, seu pai chorou: “Os talibãs são muito cruéis. Arrancaram o sorriso dela.”
 
Mas se lhe é impossível sorrir como antes, a disposição para a luta se robusteceu assim que se recuperou,  fato consideradp quase milagroso. A defesa apaixonada pelo direito das mulheres à educação ganha mais força cada vez que ela aparece em público, marcando posição com sua voz doce e firme. Na mesma terça-feira negra para os paquistaneses, ela foi à TV para condenar “este ato a sangue-frio e de terror em Peshawar”, frisando que “crianças inocentes em sua escola não têm espaço num horror como esse”.
 
Peshawar fica próximo ao lugarejo chamado Mingora, no Vale do Swat, onde Malala viveu até o dia 9 de outubro de 2012, quando, dentro de um ônibus, foi baleada pelos talibãs: “ Saí de casa para ir às aulas e nunca mais voltei”, escreve. Ela também era uma inocente criança a caminho da escola, e sua inteligência, sede de conhecimento e vontade de mudar o entorno a tinham levado a produzir um blog para um canal de TV onde contava seu cotidiano numa sociedade onde a mulher pouco vale e está destinada a se casar com quem o pai escolhe, apenas para procriar, cozinhar e lavar. Ao questionar este modelo de vida, a repressão ao gênero feminino, os muitos impedimentos que haviam levado gerações de mulheres a desistirem das classes de alfabetização, Malala desafiou os talibãs. 
 
Falar da coragem, altivez e fé desta menina é trazer à baila, obrigatoriamente, seu pai, Ziaudin Yousafzai, que emerge do relato como um herói perseverante em seus ideais, em luta constante e só aparentemente miúda. Casa-se por amor. Recebe o nascimento da filha com ternura e festa, contrariando o costume local de sequer anunciar a vinda ao mundo de um bebê do sexo feminino. Consegue construir uma escola que “ensina a pensar”. Profere palestras onde condena o extremismo do Talibã. E, exceção das exceções no mundo onde vive, pede conselhos a sua mulher.. 
 
Malala é portanto fruto de uma família amorosa que se quer com mais autonomia e capacidade de refletir. Com o sucesso do blog, ela passou a acompanhar o pai nas palestras para despertar nas garotas de sua idade o gosto pelo saber. Seu carisma e preparo eram persuasivos e isso passou a incomodar o Talibã. O pior aconteceu.
 
Mas o pior representou libertação e abertura de caminhos. Os olhos do mundo passaram a considerar com mais atenção a presença dos talibãs no Paquistão. E o Prêmio Nobel da Paz conferido a Malala no último novembro reflete a importância de sua atuação. Apenas com atitude e palavras ela moveu peças no tabuleiro político e agora se prepara para criar o Fundo Malala, que vai auxiliar na luta para levar educação aos recantos do mundo ainda imersos nas trevas do preconceito e da ignorância.
 
"Venho de um país criado à meia-noite. Quando quase morri, era meio-dia.” Assim Malala começa a contar sua história, que tem ligações viscerais como as estruturas de uma nação ainda precária em liberdades e democracia. O livro abre janelas que nos permitem olhar para uma cultura onde perduram segmentos opressivos e violentos; para uma menina corajosa e inspiradora; para “todas as garotas que enfrentaram a injustiça e foram silenciadas”, conforme se lê na página de rosto da biografia já traduzida para 14 idiomas.
 
 
Christina Lamb
 
Esta jornalista é um furacão. Formada em Filosofia, Economia e Política por Harvard e Oxford, começou a carreira com colunista de Economia. Mas logo passou a rodar o mundo como correspondente do jornal The Sunday Times. A lista dos prêmios que já conquistou não caberia nesta página. No item entrevistas, tornou-se famosa a que fez com Benazir Bhutto em Londres, em 1987. Benazir, que seria assassinada logo depois de eleita presidente do Paquistão, convidou Christina para seu casamento e ambas se tornaram amigas. Christina viajou então através da Caxemira e por todo o vizinho Afeganistão. Nas fronteiras deste último cobriu a luta dos Mujahidim contra os ocupantes soviéticos e entrevistou o futuro presidente Hamid Karzai. Por causa de observações feitas na ocasião, foi considerada persona non grata e expulsa do país. De volta a Londres, foi escalada para o Brasil, onde cobriu os estertores do governo Collor. 
 
Daqui foi para a África do Sul, depois Chile (pós-Pinochet), Portugal, Iraque. E Zimbabwe, cujas reportagens lhe garantiram premiação pelas reportagens em que registrou e criticou a pobreza extrema daquele país africano. No início de 1999 casou-se com o jornalista português Paulo Anunciação em Zanzibar. No ano seguinte deu à luz Lourenço.
 
Voltou ao Afeganistão depois dos atentados às Torres Gêmeas. Descreveu os conflitos mais ferozes dos talibãs no sul do país e escreveu uma série de matérias sobre a forma cruel como agiam. Jornalista especializada em cobertura de guerras, recebeu há dez anos um prêmio europeu importante, o Bayeux.
 
A vasta experiência no Paquistão e Afeganistão com os talibãs e o impacto que a história de Malala produziu em seu espírito à época do atentado a levaram a aceitar o convite para escrever em parceria Eu sou Malala. Seus conhecimentos foram importantes para construir o livro, pois é evidente que por mais inteligente e estudiosa que seja Malala, sua pouca idade ainda não lhe permite traçar o complexo perfil de seu país tal como como aparece na biografia.
 
 
LIVRO
 
Título:  Eu Sou Malala
Escritoras: Malala Yousafzai e Christina Lamb
Selo: Companhia das Letras
Páginas: 360
 
 
Sonia Machiavelli,  professora, jornalista, escritora

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