De pé estamos e junto caminhamos

Por: Chiachiri Filho

Por ocasião de seu nonagésimo  quinto natalício, eu provoquei minha avó materna, Maria Jacinta, com a seguinte observação:
 
- Tá ficando velhinha, hein vovó?! 
 
Com muita lucidez e firmeza, sem nenhuma  alteração ou surpresa, ela respondeu-me:
 
- De pé estamos e junto caminhamos, meu neto! 
 
Mal sabia que com ela iria caminhar somente mais um ano. Depois, ela partiria para  as paragens libertas  do tempo e do espaço. 
 
Com outras companhias continuei minha caminhada pela vida.  Por várias vezes quis parar, descansar, congelar o momento vivido, evitar a sequência, paralisar o tempo como numa fotografia onde a perpetuação  elimina o movimento.  
 
Por mais que eu tente, por mais que me esforce, não consigo parar esse maldito tempo. Ele me faz avançar, caminhar sempre para frente, deixar para trás o meu passado consolidado e partir sempre em busca de um futuro incerto e desconhecido. 
 
O tempo é implacável, inexorável, irreversível.  É o tempo que nos dá o antes, o agora e o depois. É o tempo que nos dá a vida e nos conduz à morte. Carrasco, ele não nos concede o direito de retorno e nem tampouco o de escolha e prolongamento dos momentos felizes vividos. 
 
Daqui  a  alguns dias, entraremos em mais  um novo ano, no ano da graça de 2015. Nesse ano completarei os meus setenta.  Estarei velho? Amanda, minha netinha adorada, ainda não articula bem as palavras para constatar a minha velhice.  Enquanto isso, eu me vingo do tempo usando a bendita memória.  A memória me dá o direito de retorno e de escolha. A memória, só  a memória, pode me levar a um passeio pelo meu passado e , mais do que isto, permite-me  selecionar as estações e situações mais alegres, mais agradáveis, mais felizes. Permite-me dilatá-las, revivê-las e usufruí-las em toda sua intensidade. 
 
Eu me vingo do tempo usando a memória.  Afinal, o que seria do tempo sem a memória? Um espaço vazio, uma folha em branco, uma vida esquecida e apagada.
 
Portanto, meu velho e prezado leitor, no início de cada ano eu reservo algumas horas  para  me recordar  do ano que passou, dos anos que passaram , da minha caminhada pela vida que flui incessantemente.  Relembro-me só das coisas boas, das coisas agradáveis, dos momentos de satisfação e festa. E, assim, de pé, continuo caminhando pela vida  com muito mais firmeza e confiança em direção a um futuro que, embora incerto e não sabido, deverá ser, em grande parte, um reflexo da  trajetória já percorrida. 
 

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