De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, o acesso à escola ficava restrito à elite econômica, que podia manter seus filhos em escolas particulares.

Em Franca havia duas delas, cuja fama ia muito além das fronteiras do município e do estado. Elas abrigavam, em regime de internato ou de semi-internato, jovens oriundos sobretudo do município e região. Essas escolas eram o Colégio Champagnat, administrado pelos irmãos maristas, e o Colégio Nossa Senhora de Lourdes, dirigido pelas freiras daquela congregação. Dispensável explicar que o primeiro atendia o público masculino, e o segundo, as jovens estudantes.

Ao bacharelar, em desejando prosseguir seus estudos, alguns alunos iam para o Rio de Janeiro cursar Medicina, enquanto outros se dirigiam a São Paulo, a fim de cursar Direito no Largo de São Francisco, ou Normal, no Colégio Caetano de Campos.

Por iniciativa do então prefeito municipal de Franca, Major Torquato Caleiro, foi fundada uma nova escola na cidade. Isso ocorreu no ano de 1928, e a instituição se chamou Escola Normal Livre. Mantida pela municipalidade, a escola atendia os estudantes que não podiam se deslocar para capitais a fim de dar continuidade aos seus estudos.

Através dos anos, a escola experimentou alterações em suas finalidades e objetivos. Sua denominação também mudou algumas vezes.

Chamava-se Instituto Estadual de Educação Torquato Caleiro quando, em 1955, timidamente, transpus portas, ingressei em suas salas de aula, pisei sua quadra esportiva.

Menino privilegiado lá da Vila Santos Dumont, bebi ali, naquela fonte quase sagrada, conhecimentos que choviam de elevadas criaturas. Ingeri lições que, tantas décadas depois, mantêm úmida uma terra até então árida e estorricada pelo sol da ignorância.

Por isso, permanecem em meu presente aquela fábrica de alicerces e seus obreiros: Pedro Nunes Rocha, Dona Branca, Dona Carlinda, Ana Maria, Lineu Vasconcelos Lemos, Dr. Valeriano Gomes do Nascimento, Chafic Felipe, Roberto Scarabuci, Dr. Alberto Blucher, Dr.Mauro Silveira, Pedro Morila Fuentes, Antonieta Barini, Luiz Martins Rodrigues Filho, Sudário Ferreira, Otávio Martins de Souza, Hilário Giovanela, Paulo Elymos Ferreira, Mílton Alves Gama...

Sei, hoje, que essas criaturas foram suaves nuvens que povoaram os céus de minha juventude e alimentaram uma alma maravilhada diante das paisagens que diferentes sóis descortinavam.

Com alguns mestres a convivência se fez de longe. A distância foi motivada por diferentes horários, por aptidões diversas. Mesmo assim, permanecem no presente, vivos no respeito que impuseram sempre. Nesta galeria se destacam os retratos de Alfredo Palermo, Lúcia Cerazo, João Alves Pereira Penha, Senhor Garcia, Geraldo Taveira...

Todos, sob a batuta de Júlio César D’Elia, constituíram a orquestra superior que executou as composições elaboradas por cientistas e artistas da humanidade.

De primeiro, as escolas eram assim.

Eu era ingênuo. E ainda não sentia saudade.
 

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