Um novo mundo

Por: José Borges da Silva

A expressão não é nova. É provável que exista desde o tempo do Imperador Chin, que para proteger o seu povo das tribos nômades da Mongólia, mandou construir uma muralha em torno do imenso país que leva o seu nome. Claro que todos se sentiram habitando um novo mundo. Muito provavelmente a expressão também tenha sido usada quando os mesmos chineses inventaram a pólvora, ou quando Moisés escreveu os livros do Pentateuco, tentando organizar e proteger o seu povo, ou quando Jesus contou suas extraordinárias parábolas ao povo simples. E até mesmo quando Maomé ditou o Corão aos sofridos povos do deserto, certamente apresentou a perspectiva de um novo mundo. Mas, enfim, como sabemos com certeza, a expressão teve larga aplicação para designar as novas terras das Américas recém-descobertas pelos europeus. Enfim, a expressão tem sido usada para descrever os momentos de invenções que colocam a sociedade humana em um novo patamar, saltos evolutivos na sua longa escalada na Terra.

No momento atual da civilização é difícil destacar uma invenção ou tecnologia que justifique a expressão, considerado o imenso número de novidades que surgem alavancando o progresso humano a cada instante. Eu, na minha área, observo que a advocacia está ficando virtual – e a Procuradoria do Estado de São Paulo que uma das maiores bancas de advocacia do país - está se tornando coisa semelhante. E nesse meio, o que destacaria? Claro que as novas formas de comunicação! Há alguns dias, neste espaço, eu falava do processo digital e do desaparecimento dos escritórios montados com suas mesas, cadeiras, secretárias, máquinas... Falava da desnecessidade de Fóruns, de papéis, de livros e balcões de atendimento. Mas agora quero me referir ao trabalho propriamente dito. Nos primeiros anos da minha vida profissional, havia grande reverência aos advogados mais velhos, por causa da experiência acumulada, do conhecimento técnico, enfim, sempre os profissionais mais antigos eram consultados pelos mais jovens, diante de casos mais complexos. Hoje, no entanto, isso já não é mais tão corriqueiro. Primeiro porque há todo tipo de informação pronta disponível na Rede. Segundo, porque as coisas do mundo jurídico mudam numa velocidade vertiginosa e não é nada fácil aos mais antigos se manterem atualizados. Na verdade, não é fácil nos mantermos atuando. Não quer não dizer que todos nós os mais antigos não conseguimos acompanhar a nova ordem das coisas. Conseguimos, mas alguns com grandes dificuldades.

Há alguns dias eu passei meio período preparando uma peça de defesa um pouco mais complexa, mas gastei um dia inteiro tentando transmiti-la ao Tribunal. E não consegui! Já à noitinha, premido pelo tempo, liguei em um daqueles números de socorro que geralmente são colocados à disposição para consultas e, em alguns segundos, uma mocinha do outro lado da linha, ao vivo, me alertou: “doutor, esse tipo de mensagem indica que o senhor colocou algum número de documento repetido! Corrija que acaba o problema.” Dito e feito! Trinta segundos depois recebi a mensagem do tribunal informando que a peça fora protocolada com sucesso! Tirei um peso imenso das costas. Estamos ou não estamos em um mundo novo outra vez? Duvido que os da minha geração não concordem!
 

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