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Por: Maria Luiza Salomão

Recebi um convite, para representar Franca em um quadro que constava do programa de auditório do Silvio Santos: Cidade contra Cidade. Enquanto o auditório selecionava cinco palavras para duas outras escolhidas pela produção do programa, uma palavra para cada “cidade-time”, as representantes eram “engaioladas” em uma cabine à prova de som, e escreviam palavras associadas à palavra-chave respectiva de sua cidade. Sílvio Santos lia, após um tempo delimitado, as palavras escritas pelas representantes e, quando a palavra escrita correspondia à escolhida pelo auditório, soava um sino. A cidade que “zerasse” as cinco palavras ganhava pontos. Para Franca ficou a palavra “Ano Novo”. Para a cidade adversária ficou “Natal”.

Esse era o último quadro (depois de vários), e que decidiria quem venceria o encontro Cidade & Cidade.

Eu estava no, hoje extinto, Científico. Tive medo de aceitar o convite. Na época, a cidade parou para assistir o programa. Fomos e voltamos de ônibus, uma caravana para a TV em São Paulo.

Na hora de escolher as cinco palavras, meu pai, que estava na platéia, escolheu a palavra “confraternização”, acolhida pelos francanos que lá estavam na torcida. Um tio meu, que assistia ao programa em Franca, achou que eu jamais associaria Ano Novo com essa palavra e ficou muito bravo com quem sugerira a palavra (sem saber que tinha sido o meu pai que a escolhera).

Essa a palavra que meu pai associava ao primeiro de janeiro. O Dia de Todos os Irmãos. Sem raças, sem diferenças, uniformizados em vestes e votos: o mundo inteiro. Luzes espocam, a melodia cantada internacionalmente, triste e alegre ao mesmo tempo: a dizer adeus e a saudar o ano nascente. Muitos choram, outros se fixam no mostrador do relógio, muitos talismãs e rituais pessoais, alguns oram - silenciosa mente. Armistícios firmados entre povos que guerreiam. Ao final da contagem regressiva, abraços e risos, luzes e assombros.

Há diferença de fuso horário, mas todos de olho na virada de calendário: 31/12 ao 1/01.

Meu pai me legou a palavra confraternização, selando um sentimento, nunca esquecido: que ninguém se esqueça de que somos uma só espécie, não importa o lugar de nascimento, a língua que se fale, o gênero que se tenha.

Por que, para quê, em nome do quê, meu Deus, tanta violência entre um irmão e outro?

Que cada um de nós possa oferecer ao outro a melhor, a mais branca e original, silenciosa, gostosa, úmida, lavrada, palavrada, refrescante paz que tenha conservado em seu coração. Que venha em forma de um enorme abraço de confraternização.
  

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