Desejos de Ano Novo

Por: Eny Miranda

“O que te escrevo não tem começo: é uma continuação. Das palavras deste canto que é meu e teu, evola-se um halo que transcende as frases...”
Clarice Lispector,in Água Viva


E o que fazemos na passagem do ano é isto: um “presente” especial que nos damos - tempo descontínuo no contínuo do Tempo, cristalização de um instante no eterno. O que dizemos e escrevemos na passagem do ano, em canto de celebração e desamparo cronológico, são palavras e notas cujos halos transcendem a temporalidade de simples frases e simples cantos. Quando a contagem regressiva do dia trinta e um do velho dezembro atinge o último segundo do minuto zero, que o separa do novo janeiro (ou que a ele o une), retemos deliberadamente rotações e translações universais e giramos, tu e eu, vertiginosos, eternizando o instantâneo em halos, entre acenderes e apagares, entre espocares de bolhas e cores e luzes, abraços e brindes e votos de novos tempos - de janeiro a dezembro (que, então, será “velho”) - de novas esperanças, minhas e tuas, nos próximos instantes, não cristalizados, desenrolados no grande tempo. Porque ele, o Tempo, como no canto de Clarice, é o evolar-se contínuo (em halo ou sombra ou pintura ou “trombeta que anuncia”), de incontáveis “agoras”, “jás”; o transmutar-se do instantâneo em perenes doçuras e amargores, bálsamos e venenos - água viva. Porque o Tempo é mais do que “a palavra [fincada] no vazio descampado”. O Tempo “não tem começo [nem fim]: é uma continuação”.

Tu e eu, que passamos a vida desejando estar livres do tempo cronometrado, parecemos necessitar com força visceral desse pequeno tempo no fechar/abrir de cada ano, dessa instantânea fração entre o último estertor de dezembro e o primeiro inspirar de janeiro, consubstanciada em votos - vaticínios que se evolam em contínuos e amoráveis halos de amor e boa sorte para a nossa vida, em desejos de um Feliz Ano Novo!

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