Feliz Transformação

Por: Ronaldo Silva

A proxima-se o Réveillon . Um dezembro meio calado afivela suas malas já com certa pressa. Dentro delas, bem acomodadas, todas as lembranças e histórias, alegrias e tristezas, benesses e agruras dos últimos trezentos e cinquenta e tantos dias.

O ano de número dois mil e quatorze vai saindo de cena, cansado, surrado, por alguns até amaldiçoado.

E nós? Como ficamos nós?

Simples: nós ficamos aqui, preparando os caminhos para um outro ano, jurando uns aos outros e tentando nos convencer a nós mesmos de que será um ano maravilhoso, repleto daqueles votos que repetimos incansavelmente durante os intermináveis abraços e apertos de mão que distribuímos entre o dia de Natal e o trinta e um de dezembro. Muita paz, saúde, prosperidade, dinheiro no bolso etc.

Tenho a sensação de que cada um de nós, ao repetir a cantilena de votos de um novo ano melhor, na verdade, intimamente fica tentando se convencer de que, por alguma mágica maluca, a mudança do calendário por si só há de melhorar o mundo e as pessoas.

Sempre nutri certa desconfiança em relação a essa crença de que, mudando o número do calendário, há uma chance excepcional de que tudo a minha volta se transforme para melhor e que a vida passe a sorrir mais para mim.

Esse texto mereceria aqui um parênteses para falar do talento e das teses dos numerólogos, tarólogos, astrólogos e mais alguns “ólogos” que defendem suas teses sobre influência dos números ou dos astros ou seja lá o que for sobre o nosso destino. Mas, confesso duas inconveniências: primeiro, que, na tentativa de explicar tais teses, esse parênteses ficaria longo demais; segundo que, pessoalmente, eu não creio nem um pouquinho nessas teorias. E, como o texto é meu, garanto-me a prerrogativa de não dar espaço ao que eu não creio. Mesmo sob pena de alguns dos meus leitores se sentirem ofendidos em suas crenças e abandonarem aqui a leitura.

O âmago da questão – sem mais rodeios – é que, ano após ano, temos a sensação de que tudo à nossa volta se repete, remetendo-nos à velha máxima contida no capítulo um do Livro do Eclesiastes: “O que foi, isso é o que há de ser; e o que se fez, isso se fará; de modo que não há nada de novo debaixo do sol”.

Qualquer um que deseje constatar essa realidade poderá fazê-lo facilmente realizando uma pesquisa sobre os arquivos de jornais de anos anteriores. Encontrará textos, áudios ou vídeos que se repetem sobre violência, acidentes de trânsito, corrupção, desastres naturais, crises nos mais diversos setores da administração pública, impostos, custo de vida, crescimento econômico etc.

Um exemplo de notícia aí está: “Bancos anunciam lucros recordes no ano de....” Pode preencher com o ano que desejar e você não estará mentindo. E nós, imensa maioria de brasileiros – os que não pertencemos à classe A – nos indignamos ao lembrar nosso minguado o ganho e o abismo que nos separa das cifras mencionadas. Nessa hora, amaldiçoamos os ricos banqueiros. Os mais radicais prometem-se a si mesmos fechar a conta no banco e isso e aquilo...

Promessas, nada mais. No ano seguinte, estaremos ouvindo a mesma notícia, com a mesma indignação e renovando a indignação.

O exemplo do lucro dos bancos é apenas para ilustrar o fato de que em tudo nas nossas vidas, entra ano e sai ano, fazemos promessas de mudanças, votos de transformação e vamos repetindo à exaustão um modelo de vida e um corpo de crenças e ideologias que nos mantém atrelados a nossos pequenos vícios, às pequeninas imperfeições e preguiças que, somados, travam nosso progresso pessoal e assim esmaece o brilho dos votos que nos fazemos uns aos outros sob os fogos de infinitas noites de réveillon.

O que precisamos, mais do que um novo calendário, é de novas atitudes. Mais do que promessas regadas a champanhe e sopa de lentilhas, necessitamos é de uma decisão firme e coerente em prol da nossa transformação pessoal, da qual nascerá a transformação da sociedade.

Podem vir 2015, 2016... Se esses novos números nos encontrarem refratários às mudanças, hábeis apenas em pronunciar belos e estéreis presságios aos outros, o país nunca será aquele que sonhamos.

Por isso, eu desejo a você que está lendo esse texto, não saúde ou prosperidade, ou dinheiro no bolso. Desejo a você, atitude.

Desejo a você que pare de olhar para o calendário e volte os seus olhos para o seu interior, num profundo e sério exame de consciência, a fim de detectar onde está a necessidade de transformação para que você passe a ser tudo aquilo de bom que deseja aos outros, seja em janeiro, fevereiro ou setembro, seja que ano for.

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