Um conto de Natal caipira

Por: Paulo Rubens Gimenes

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Quando eu conheci o Nosso Senhor Jesus Cristo, e já faz muito tempo, Ele ainda era menino, menino como eu, e foi lá na Capela de Santa Rita, do Padre Zé Lamberti, lá no Vilarejo do Buritizinho.

Tava ele, o menino Jesus, todo bunito, todo branquim, deitado no presépio, que tumbém era muito bunito,cercado de animalzinho, do São José e da Virge Maria, arrodeado de grama verdinha feita de serragi tinturada. Era Natar.

Mas naquelas época Natar num era que nem que é hoje não; num tinha presente, num tinha nem papai Noel.

Mesmo assim, na inocença de criança, sentia que aquela época tinha algo muito especial. As pessoa era mais alumiada, mais limpinha, as roupa mais bunita, as missa diferente, inté a batina do padre Zé Lamberti ficava mais formosa, com umas cor de lindeza sem fim.

E num sei proque, sismei na minha cabecinha, nos sonhos de meninice, que se olhasse praquele menino e pedisse, quarque coisinha, um tiquinho de nada, que nada fosse pros outros, mas especial pra mim; nada demais, só um mimo, uma bola de capotão ou uma comida gostosa pro armoço de domingo. Que se eu chegasse pertim dele e fechasse os olhos bem fechadim e pedisse com força, com muita força que de repente ele dava pra mim; ora, tia Carmen ensinava nos catecismo o tanto que Ele era bão e se Ele era bão nunca que ia nega um pedidim assim pra mim.

Arre, ano após ano, natar em cima de natar, eu fui lá no presépio e cheguei perto do meninim bunito e fechava os óio, e pedia, e pedia com força e pedia com mais força ainda e... nada. Ano após ano, natar em cima de natar eu pedi, pedi com força e aquele menino, com toda a buniteza do risinho no rosto, com os bracinhos abertos.... nunca que me atendeu.

A despois, a despois que tudo se foi – as tolice das meninice, as quermesse da Capela de Santa Rita, o padre Zé Lamberti e suas batina bunita e tumbém o presépio - me esqueci do menino Jesus, desaprendi, cansado de num se atendido, a pedi.... e lutei. Lutei, briguei, me esturruquei pelas coisa que eu queria.

E foi com muita briga, muita luta e labuta que conquistei de tudo nessa vida. Cada mimo, do mais pequininim, aos luxo moderno, conquistei suzinho sem pedi nada pra ninguém. Nunca faltou as força, mas os óio agora tava bem aberto, por causa que esse mundo num é coisa de Deus não.

Tanta briga, tanta peleja deixaram suas marca no meu corpo, sulcaram meus nervos de dor como o arado fere a terra. Os ponteiro do tempo como navalha, tatuaram doloridas medalhas na minha cara por cada batalha vencida. Essas marcas, as chaga do corpo e da cara, o dinheiro e o poder inté que ameniza, duro, duro é as ferida do espírito, essas ninguém apaga, porque ferve dentro da gente; e quanto que dói a ferida da raiva, quanto lateja a chaga da solidão.

A porque, quando a gente tá nessa peleja de vencê sozinho esse mundão, nada do que a gente arrebanha por interesse num chega ao coração e coração suzinho esfria, embrutece, corta a alma, espora o espírito.

E foi assim, nessa lastimave conjuntura que enfim reencontrei Jesus Cristo Nosso Senhor e dessa vez quem pediu arguma coisa foi Ele, e Ele me pediu assim: “Olha pra Mim!”, recarcado, ressabiado com as decepção do passado, fui subindo os óio devagarzim por debaixo das parpebra, que tava meio aberta, meio fechada e olhei pr’Ele e vi que Ele, que nem que eu, ali pregado na cruz, trazia tumbém as chagas pelo corpo, tava judiado pelas bataia da vida. Meus óio se abriro um pouco mais e pude vê que, embora nóis carregasse marcas parecida pelos corpo, nos nosso coração a gente diferençô demais, ao contrário de eu, por dentro o filho de Deus estava limpo, são, alumiado do mesmo jeitim que tava quando eu vi Ele pela primeira vez lá no presépio da Capela de Santa Rita, lá onde eu tanto , tanto que pedi, pedi só um pouquinho e Ele me negou.

E na hora que eu fitei os óio d’Ele, Ele leu meus pensamento,a porque o filho de Deus é assim num carece da gente proseá pr’Ele, porque Ele já sabe das nossa palavra inté antes delas sai da nossa boca e diante daquela mágoa de menino que campeou meu destino por pastagens tão malditas, Ele sorriu e me deu um presente, me presenteou não com um mimo qualquer, um brinquedo ou uma comida boa, dadivou-me com uma vida nova e meu coração finalmente encontrou o coração do Salvador e o meu ‘eu’ criança encontrou outra vez o menino Jesus e de mãos dadas saímos a passear, jogando pedra na lagoa, correndo atrás de passarim, chutando uma bola de meia nas graminha verdinha do presépio da Capela de Santa Rita lá no arraiá do Buritizinho.

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