De primeiro

Por: Luiz Cruz de Oliveira

De primeiro, as pessoas que se diplomavam no Curso Normal faziam jus ao uso de anel identificador de que elas eram professoras. 
 
Os formados em Odontologia, em Direito ou em Medicina, além de seu anel característico, eram ainda distinguidos com o título de doutor, geralmente ostentado em placas colocadas diante de seus escritórios ou consultórios.
 
Havia justificativa para o anel e para o doutor.
 
A obtenção do anel e do título apenas se dava depois de anos de trabalho árduo. O estudante fazia sacrifícios muitos: ausentava-se do lar paterno, dos amigos, da cidadezinha onde todos se conheciam, ia submeter-se a exames vestibulares,  ia residir quase sempre em capitais distantes – Rio de Janeiro, São Paulo, Recife, Salvador. 
 
Em Franca, o caminho que levava à  conquista do anel e do título começou a ser amainado a partir de 1957, ano em que o prefeito Onofre Sebastião Gosuen sancionou a lei 653, que criava, através de autarquia, a Faculdade de Direito de Franca. O funcionamento da escola foi autorizado pelo presidente Juscelino, através do Decreto 43.210, de 28 de fevereiro de 1958.
 
Onofre Gosuen nomeou Benedito Freitas Lino primeiro diretor da escola.
 
Por exigência do Ministério da Educação e Cultura – MEC, a faculdade necessitava, para o início de suas atividades, de determinado número de professores já credenciados pelo Ministério. Resolveu-se o problema, trazendo da cidade de Uberaba alguns professores devidamente licenciados, enquanto se regularizava a documentação de advogados francanos dispostos ao exercício do magistério na área jurídica.
 
Sanados os entraves burocráticos, nossa Faculdade de Direito deslanchou, contando, em sua fase inicial, com o trabalho denodado de Antônio Baldijão Seixas, Antônio Arruda, Alfredo Palermo, Alberto Eliezer Filho, Tomás Novelino, João Alves Pereira Penha, Valeriano Gomes do Nascimento, Ângelo David de Persicano, Olinto Santos Novais, José Infante Vieira...
 
A instalação de um curso superior na cidade significava comodidades extraordinárias para o estudante. Não reduzia um mínimo sequer, porém, os degraus que ele deveria subir para ingresso no ensino superior. Eles eram tantos quantos aqueles exigidos para o ingresso na Faculdade do Recife ou do Largo de São Francisco.
 
O candidato se submetia a exame rigoroso, com provas escritas e orais. Na prova escrita de Português, ele deveria responder a questões gramaticais e compor uma redação. Na prova oral, ele mesmo sorteava uma questão e dissertava para uma banca a respeito, por exemplo,  do Arcadismo no Brasil, da Semana de Arte Moderna, do Indianismo na Literaura, etc. O examinador de Latim formulava prova com tradução de texto e questões gramaticais. Oralmente, exigia leitura, tradução de texto e declinação de palavras. 
 
De primeiro era assim: vestibular muito concorrido, provas muito difíceis. 
 
Aprovada, a pessoa estudava durante cinco anos para bacharelar-se em Direito.
 
Além disso, era-lhe forçosa a aquisição sistemática de livros ao longo do curso. A exigência fazia parte da educação escolar, e o resultado era que todos os formandos começavam a trabalhar já dispondo de pequena biblioteca.
 
De primeiro era assim: a escola promovia educação sólida, disponibilizava ao formando todas as ferramentas para se tornar profissional útil e respeitado.
 
 
Luiz Cruz de Oliveira, professor, escritor, membro da Academia Francana de Letras
 
 

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