Viajando...

Por: Maria Luiza Salomão

Ainda não cumpri meu voto de menina, o de conhecer o Brasil de Oiapoque a Chuí. Fico assombrada com pequenas viagens, trajetos na rota de viagens que fazemos e que descortinam paisagens, conhecimentos e ideias novas sobre o nosso país.  Por exemplo, a estrada Franca-Ribeirão Preto, não saberia contar quantas vezes eu percorri. No entanto, só fui conhecer Brodowski, o Museu Portinari, há pouco tempo. 
 
Não canso de admirar a estrada: anotando as mudanças: os campos cafeeiros desaparecidos para ceder lugar à monocultura da cana de açúcar. Creio reconhecer as árvores dessa estrada: a paineira solitária, que desfolha, enfolha magnificamente, floreia; as primaveras de muitas cores que cercam uma fazenda; os laguinhos aqui e acolá em meio a campos de mil tons de verde; o rio Sapucaí, as palmeiras isoladas em campo verde na fazenda perto de Franca; o novo haras perto de Ribeirão; a descida que descortina Ribeirão Preto que, reza a lenda, foi fundada ao fundo de um vulcão...(sorrimos pela óbvia associação ao calor infernal da cidade vizinha, situada abaixo da nossa altitude francana). 
 
Dificilmente a gente contempla tanta beleza mundo afora, como essa estrada que cruzamos, necessariamente, ao sair de Franca para o mundo.
 
Conheci Penedo, cidade situada no caminho de São Paulo-Rio de Janeiro, distante cerca de 150 km do Rio. A 3 km, saída 313 km da Via Dutra, chegamos a essa cidade, cercada de altas montanhas, a recortar um desenho serrilhado no céu azul, em luz deslumbrante. 
 
Algo acontece com cidades montanhosas: um convite para meditar sobre a eternidade; a imobilidade (nada a fazer) que permite sonhar; a desaceleração das comezinhas preocupações, o gosto pelo simples e essencial: comer, beber, amar, silenciar as tagarelices, ser gentil e hospitaleiro com o estrangeiro; as cachoeiras: onde há montanha há cachoeira. 
 
Som divino: água se chocando com as pedras, o fluido e o rígido, eternos, perseverando cada qual em simplesmente ser. 
 
Penedo, como tantas cidades brasileiras, tem histórias de imigrantes. Finlandeses lá chegaram em 1929. Em um Museu Finlandês, encontro uma descendente, Helena, que narra sobre esse braço Finlândia-Brasil.  Somos uma população oriunda de variados imigrantes. Muito devemos aos braços e à mentalidade daqueles que vieram, por um ou outro motivo, aportar por aqui, trazendo influências significativas para o nosso modo de viver, comer, pensar, sentir, agir.  Comemos lá truta, linguiça, cervejas artesanais. Há a “Cachoeira de Deus”, escondida e inacessível tanto quanto o próprio. 
 
Helena, a pedido, fala em finlandês mostrando o som peculiar da língua, que se assemelha ao húngaro, língua “do diabo”, impossível de aprender.  Perguntei como era “mãe” em finlandês, já que “mãe” se assemelha, pelo som, a muitas línguas. Ela diz: “äiti”: em nada lembra mãe-amor-mamar.
 
Curioso morar em um país tão grande: difícil governá-lo! Que  consigamos, nesse 2015 de dificuldade anunciada, cada qual no seu quadrado, trabalhando e amando muito, consolidar a beleza e o potencial que nos encerra essa complexa e desafiante identidade - ser brasileira.
 
 
Maria Luiza Salomão, psicóloga, psicanalista, autora de  A alegria possível (2010)
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras