Ousadia

Por: Eny Miranda

O tempo era bom. As águas estavam tranquilas, convidativas. Toda a atmosfera parecia favorável: céu muito azul, ventos amenos, horizonte aberto. Confiante, lançou-se ao mar. Milhares de peixes rodeavam a embarcação, à cata de pedacinhos de pão, cigalhos, farelos... jogados na água. Famintos, abocanhavam as migalhas, deixando-se fisgar. Inocentes, prendiam-se nas redes com facilidade. Tamanha foi, então, a sua certeza na prodigalidade do momento, que investiu mar afora, sem mapas, rotas ou planejamentos; a improvisar caminhos, à mercê de moiras e rodas da fortuna.
 
Mas o humor dos oceanos é imprevisível, e o leme em mãos inexperientes e demasiadamente autoconfiantes, perigoso. Assim, o tempo se foi alterando, paulatinamente: as águas encapelando, o céu acinzentando, os ventos mudando de rumo e ganhando velocidade, os peixes... ah, os peixes, estes, cansados de iscas, anzóis, redes e farelos, foram escasseando. Muitos deles, surpreendidos e irritados com o mau tempo, passaram a atacar a embarcação, arremetendo contra ela seus corpos e caudas e dentes. Tempestades desenhavam-se nos quatro cantos do céu, já densos, pesados. Algumas desabaram. 
 
Apesar das afoitas mãos condutoras, não chegou a haver soçobro. À deriva a nau seguiu, completando a viagem e atracando - desgastada, mas ainda viável - em terra aparentemente firme.
 
Agora, mesmo reconhecendo a existência (e o peso) das adversidades, não desiste: inicia outra aventura.
 
 
Eny Miranda, médica, poeta e cronista
 
 
 

Envie seu texto
e faça parte do Nossas Letras