No remoto ano de 2014

Por: Everton de Paula

Não, não é engano. Embora finado há dois dias, 2014 é tão irremediavelmente passado quanto o ano da morte de Ramsés II ou o do nascimento de Shakespeare. Passado é passado, varia apenas quanto às consequências que acarreta no futuro. O passado é um segundo coração que bate em nós, resumiu Paul Valéry.
 
Há um melancólico momento na passagem de cada ano em que atavicamente somos levados a um balanço do exercício findo. Não te recrimines, leitor(a) amigo(a), por não te lembrares de tudo quanto ocorreu em 2014. Isso de retrospectos minuciosos e resenhas analisantes é falta de serviço das agências noticiosas para preenchimento de espaço nas tevês, nas rádios, nos jornais, nas revistas. Fugiram-te da memória os resultados dos jogos do Brasil na Copa do Mundo, fora os 7 a 1? E daí? Não foi por isso que passamos o vexame com Felipão Scolari como treinador da seleção. Mal te lembras dos nomes de candidatos das eleições? Política é assim mesmo: basta-te saber se votaste ou não na agora dilminha-paz-e-amor. O resto é resto, porque política tem sua volatilidade inconsequente.  Tu não sabes a quem deste o voto para senador? Menos mal do que fazem os eleitos: aos poucos se desvencilham dos compromissos que dizem ter assumido e vão tocando o barco para o porto que interesse a eles, não a ti.
 
Aposto que guardas a salvo da corrosão da memória ao menos cinco itens que mereceram manchete de capa da última revista Veja: os 7 a 1, o petrolão, a crise da água, o PIB zero, as mentiras na campanha eleitoral. Ah, tem mais: o que te tocou no coração, na emoção, nos teus sentidos, nas fibras mais íntimas e legítimas do teu ser – isso não esquecerás, porque dessa matéria imprevisível, incontrolável se tecem os teus planos futuros, os teus anseios, a tua própria vida e a vaga noção de que foste (és) feliz, consciente ou não.
 
Calma, não vou discorrer filosoficamente sobre o ilusório teor da felicidade vivida e/ou por viver. Apenas te digo que cada um de nós  vive em meio a círculos concêntricos, mal comparando do formato daqueles que crias quando atiras uma pedra à superfície de águas calmas. Os círculos que saindo de ti vão e desaparecem metros adiante, sem marolas ou obstáculos, são a imagem do que pensas, falas ou ages que não redunde em consequência alguma nas vidas ao teu redor. É bom isso, quase sempre, mas também prova a monotonia e mesmice de tua vida.
 
Quanto mais as ondas que emites se entrebatem, entrechocam e enredam com outras ondas que não geraste, tanto mais tua vida se emaranha com outras vidas. Com isso, participas das alegrias, contingências e incertezas de tua família, de tuas amizades, de teu meio de trabalho, de tua cidade, até de teu país. Nem todos os embates são positivos ou voluntários; por vezes és o epicentro dos conflitos, das desagregações, das desconstruções. Causas terremotos acima da capacidade de medida da escala Richter. 
 
Nada em tua vivência pode ser um mar-de-rosas, nem um permanente vale de lágrimas. Assumes todos os dias o chamado dolo eventual, quer dizer, provocas situações cuja extensão não podes avaliar com segurança e cujos resultados têm riscos que nem deves pensar em assumir. Serás, no entanto, responsabilizado por eles.
 
Cuida bem dos teus próprios círculos, sem alimentares o egocentrismo da exclusividade. Teus espaços dependerão muitas vezes da tua habilidade de compartilhá-los até com estranhos, com desafetos em potencial. É um modo viável de viveres memoráveis momentos de tua paz e de tua vitória.
 
Assim é, meu/minha/caro/cara. Não te impressiones com o que dizem ter sido importante em 2014. Nada ligado à política, à corrupção, ao esporte, ao petrolão, à economia, às mentiras, à saúde e educação do povo. A história pessoal sobrepuja a história geral e quase sempre nada tem a ver com ela. Importante para ti em 2014 foi o que te fez elaborar ou reforçar uma coerente maneira de encarar a vida, enriquecendo-te em compreensão, tolerância e, se possível, até sabedoria e graça. Importante foi o que te fez rever conceitos, o que te alertou para a aparência ilusória das coisas. Importante foi assumires tuas realidades, aí incluídas as limitações da idade e do estado. Importante foi a renovação de tua capacidade de sentir, de dar e receber, de relevar os desacertos próprios e alheios.
 
Afinal, qualquer empenho em seres feliz está inevitavelmente ligado à possibilidade e ao desejo de fazeres outros felizes. Assim, não importa a cor da roupa que usaste na passagem do ano, se evitaste saborear aves que ciscam para trás, se colocaste sementes de romã em tua carteira. Importa, sim, tua consciência, porque fatalmente as expectativas de sucesso para 2015, em todos os setores, não dependem de expectativas inertes ou dogmas seculares – tu és e sempre serás o arquiteto de teu próprio destino. Crê, até com certa exageração e infundado otimismo, que és dono do teu destino e capitão do teu navio.
 
 
Everton de Paula, acadêmico e editor.  Escreve para o Comércio há 43 anos
 
 

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